Satyaprem

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A onda descansa nos braços do oceano


Quantos pensamentos, não é?! E como fazer para pará-los? Não tem essa pergunta? Quem não gostaria de parar os pensamentos?... Pois trago algumas novidades em relação aos pensamentos. E... como fazer...

Quantos métodos já nos deram para pará-los? Você tem idéia? Pois eu não vou dar nenhum outro! E sabe por quê? Porque a novidade que trago é que não precisamos parar os pensamentos. A partir de hoje, convide-os a ficar. Deixem que eles fiquem. Diga-lhes: - Bem-vindos sejam os pensamentos! Vamos lá! Pensem à vontade!... Que venham a mim os pensamentos!!!

Isso, simplesmente, porque vocês não são os pensamentos. E você, quem você é em originalidade, radicalmente, não pensa! Você, quem você verdadeiramente é, não pensa. Você pensa que você pensa, porque você pensa que você é aquele que pensa, mas VOCÊ não pensa! Então convidem os pensamentos a ficarem.

Por que vocês têm brigado com seus pensamentos? Eles não são seus... Eles são apenas pensamentos! Como os sons dos carros que passam...Como os sons das vozes... E isso tudo é periférico a você. Imagina se, para você encontrar a paz, você precisasse que todos os carros parassem... E que todas as vozes se calassem... E todas as chuvas não chovessem... E todos os dias quentes, não fossem dias quentes... E todos os dias frios, não fossem frios... E todas as dores de barriga, não fossem dores de barriga... Assim, você teria uma possibilidade ínfima de realizar a sua paz interior. Eu acredito que, se pensarmos assim, nós estamos no caminho errado. Nós ainda estamos olhando para fora.

Provavelmente, todos vocês já tentaram parar os pensamentos... Já tentaram parar os carros... Já pensaram em ter uma casa na colina para encontrar a paz. E quando você foi para lá, não havia paz, tampouco! E se havia, era temporária... Então, nessa busca tem algo errado. E eu ainda arriscaria dizer que é a própria busca que está errada.

Alguém colocou na sua cabeça que você tem que buscar a paz, e você acreditou... Ainda porque, antes mesmo de dizerem isto, disseram que você não estava em paz. E você, de novo, acreditou! E daí, conseqüentemente, disseram para começar a buscá-la... E você começou a buscar a paz fora de você: se eu comer certos tipos de comidas... se eu praticar certos tipos de exercícios... Eu vou encontrar a paz! E até que, numa certa medida, relativamente, você encontra paz. Uma paz relativa! Até que algo acontecesse... Até que alguém pisasse no seu pé... Até que alguém virasse vinho no seu colo ou café quente na sua calça... Até que alguém gritasse com você... Até que alguém contradissesse você...Até que alguém fizesse algo que fosse inaceitável para você... E a paz que você tinha "conquistado", foi-se! E aí, de novo você diz para si mesmo: eu não estou sendo perfeito! Preciso me aperfeiçoar... Preciso melhorar ainda mais a minha disciplina... Vou meditar mais! Ainda não foi suficiente o que fiz! Preciso fazer mais!... E você olha para si mesmo como um ser imperfeito, em necessidade de perfeição. E você tenta aperfeiçoar-se... Mas até quando? Até quando você irá buscar isso dessa forma? Será que você vai conseguir?... Será que não está faltando alguma coisa nisso?!

Você pensa: "mas eu vou comprar um livro novo que saiu. Parece que ali tem a chave!" E você vai, e compra o livro e o lê do início ao fim, tendo que voltar várias linhas, porque já esqueceu o que passou, e aí você lê de novo aquela mesma linha... E vai em frente, para a próxima página... E de repente você se encontra no meio da página, e você olha e não se lembra o que leu antes... E aí começa tudo de novo! E ainda chega ao fim do livro e se pergunta: "Onde está a tal chave?"

Será que você tem mesmo que buscar? E, em realidade, você sabe o que é que tem de buscar?... O que você está buscando não é uma idéia pré-concebida?... Uma idéia que alguém lhe deu de como é...Como deve ser... Como foi para ele. E você está procurando realizar aquilo que foi transmitido através de conceitos para você. E assim, mesmo que você estivesse de molho na sua realidade, no seu estado búdico, no seu nirvana, você não saberia! Simplesmente porque não vai coincidir com aquilo que você leu, ou com as idéias que você tem. Porque você lembra: "Parece que não se sente mais desejo!"... E está tudo muito bem, mas você ainda sente desejo. E agora? E então, lá vai você de novo, pois está faltando alguma coisa. Você pensa: "Disseram que não se sonha!"... Mas ontem à noite você teve um sonho. E lá vai você de novo, pois está faltando alguma coisa! "Está em algum outro lugar no tempo!"... "Está em algum outro lugar no espaço!"... E lá vai você atrás...

Até quando? Quando você vai entender algo desse processo? E a sua mente pode entender esse algo? Que algo é esse? Talvez até você já tenha entendido pelo que falei até agora. Só que para isso, há a necessidade de esvaziar o copo! Mas faça o seguinte: inclusive a idéia de esvaziar o copo deve ser esvaziada. Você tem que esvaziar o copo e tem que esvaziar a idéia de que tem que esvaziar o copo, ou que o copo está vazio, ou que há copo, e também a idéia de que há alguém esvaziando o copo... "Mas como se faz isso?!"... Não se faz!!! "E como eu não faço?"... E assim, novamente se volta ao fazer.

"Mas eu tenho que fazer alguma coisa, senão como é que vai ser?"... Oras!!! Vejam como tem sido! Vocês têm feito coisas incessantemente, inclusive sem fazê-las, pois não fazê-las é um fazer. Por exemplo: "Agora eu vou meditar!" E você senta, respira, observa sua respiração, seu terceiro olho, seu hara, a ponta das suas orelhas, a ponta do nariz... Aí terminou o tempo da meditação e novamente... E na verdade, não mudou nada! Só que antes você estava fazendo uma coisa e agora você está fazendo outra. Na verdade, qual é a diferença essencial entre fazer uma meditação e ler um jornal ou jogar futebol? Veja que, em essência, são fazeres... Apenas na concepção há diferença! Fazer meditação é mais "puro" que jogar futebol. Portanto, "eu me purifico enquanto medito, e não me purifico enquanto jogo futebol"... Isso é apenas uma concepção!

O que está faltando?... "Eu tenho que encontrar a Verdade!"... Vou fazer uma viagem aos Estados Unidos, ficar 21 dias no deserto, no Novo México, cantando com os coiotes... Ou fazer o Caminho de Santiago... Ou vou morar um ano no Himalaia... "Já vendi tudo e estou pronto!"... Será?!...

Tem a história de um iluminado, que antes de sua iluminação foi à outro iluminado e perguntou:

"- Isso que você tem, você pode me dar?"... E teve como resposta: "- Sim! Posso! E você, pode pegar?!"... Foi um brilhante jogo de palavras! Eu não tenho nada para dar, e você não tem que pegar nada. Nada!

"Onde está o erro?... Por que eu não encontro, se eu busco, busco, busco..." Mas você já parou para pensar que talvez a própria busca seja o erro?... Você já parou para pensar no que aconteceria se você parasse de buscar? E de novo, faço a mesma pergunta: Quem pararia de buscar, se não a mesma pessoa que estava buscando?... E qual a diferença essencial entre buscar e parar de buscar?

Como entender o que estou falando? Vamos lá! Diretamente! Se quando eu digo que, ao parar de buscar, você encontra; quem que pára de buscar?... A mesma pessoa que estava buscando... E assim permanece o fazer. Permanece a entidade que faz. Pois é! Onde está então a raiz disso tudo? A minha pergunta é básica!... E quantos de nós teve a coragem de olhar para a pergunta e tentar respondê-la?!... E quantos de nós sabe qual é a pergunta?... Quantos de nós sabe quem é essa entidade que busca?... Quem é essa entidade que entendeu que é para parar de buscar, e vai parar de buscar?... Quem sou eu?... Será que eu sei quem eu sou?... Eu encontrei a resposta para essa pergunta?... Eu realizei?... Eu me dei conta?... Quantos de nós sabe a resposta?... Se é que há alguma resposta!... E talvez tenha, mas não seja uma idéia que você possa conceber. Talvez seja algo inconcebível!... Talvez seja algo que você não gostaria de descobrir e por isso, você procura em todos os outros bolsos a chave, menos em um dos bolsos. Procura inclusive, nos bolsos de outras pessoas... Você viaja a procurar nos bolsos de outros lá longe... para ver se sua chave está lá. Você procura, inclusive, encontrar sua chave em lugares que você nunca passou... Mas naquele bolso, você não mexe!... Você não procura lá!... Porque talvez, você não queira saber o que é que essa chave contém, ou qual é que é a substância dessa chave, do quê ela é feita... Se é que ela é feita de alguma coisa... Ou ainda se existe mesmo uma chave!... Lembre-se! Tem um bolso que precisa ser olhado! Um único bolso falta ser olhado!... Em todos os outros você já tentou encontrar, e, se você observar, as pessoas ao seu redor já procuraram também em outros lugares, e não encontraram!...

Só tem um lugar para olhar, e ele começa com a pergunta: "Quem é você?"... E acredite! Você não é nada que você pense que você seja... Não importa o quão maravilhosa seja a idéia que você tenha de si mesmo... Ou horrenda, ou terrível, ou medíocre... Não é questão do adjetivo: a questão é do substantivo! Você não pode ser uma idéia, porque uma idéia pode ser repetida, e você é irrepetível!

Você não é algo que possa ser apalpado, que possa ser tocado... Qualquer idéia que eu te der, qualquer idéia que você receba, não é o que você é. Porque você é indefinível... E aí, você pode pensar: "OK! Já sei quem sou! Sou algo indefinível!"... Só que isso será mais uma idéia! Essencialmente, você não é definível e nem indefinível... Quem é você? E essa pergunta só pode ser respondida por você! Não pode ser respondida por mim, nem por um outro alguém... Mas tem que ser perguntado: "Quem sou eu?"

Quem é essa figura que pensa que pensa?... Quem é essa figura que pensa que tem que parar os pensamentos para chegar no Nirvana?... Que pensa que está sofrendo... Que pensa que está feliz... Que pensa, inclusive, que é um "eu"; que fala "eu" todos os dias: "Eu quero isso..."; "Eu quero aquilo..."; "Eu gosto disso..."; "Eu não gosto daquilo..." Esse "eu" que faz escolhas, e que existe apenas na fluição desses pensamentos, dessas escolhas...

"Quem sou eu?"... Parece complicado, mas é mais simples do que você possa conceber. Pelo simples motivo que você já é, e não tem como não ser. Você não pode encontrar a si mesmo, porque você é o que está buscando. Com a idéia que lhe foi dada, subentende-se que há alguém que busca, e que tem algo a ser encontrado. Tem um sujeito e tem um objeto! E você pode escolher quem você é: o sujeito ou o objeto. E, ainda assim, qualquer escolha que você faça, não é você!

De repente, você se depara com o vazio, com o indefinível, com o sem-forma, com o sem-nome, com o infinito... Que não pode ser medido, não pode ser percebido, sentido ou compreendido... E aí, você fica de cara com aquilo, e diz: "Não! Não pode ser isso! Isso é um desastre!"... Será que é mesmo um desastre?... E não tem como saber, a menos que você se confronte e veja por si mesmo... Especular antes de se jogar no abismo é vão! O meu convite é: Antes de pensar, jogue-se! Pense depois!... Esse abismo que estou falando é o abismo que você é! Confronte algo que de alguma forma as pessoas têm dito que é inacessível e amedrontador. E não esqueça que isso é uma idéia emprestada de alguém. A mente concebe a idéia de algo vazio como vazio, mas será que o vazio é vazio mesmo?... E se o vazio for cheio e o cheio que a mente concebe for vazio?!... Se você observar agora, verá que a experiência de cheio que a mente concebe é completamente vazia, ou não é?!... Você comprou o carro do ano e se sente cheio. Mas passa o ano e esse cheio se torna vazio.E você precisa de outro carro... E assim, o desejo enche de vazio a sua vida... Quem sabe então, o vazio enche realmente a sua vida?!... Questione-se! E não esqueça que o primeiro passo para esse vazio, é saber quem é você.

"Ah! Eu sou fulano de tal, engenheiro, filho do meu pai e da minha mãe..." Será?! Será que isso é você mesmo? Nossa! É tão simples e tornaram tão complicado, tão inacessível! O que é até entendível, porque o que fazem muito simples, você não valoriza. Se eu digo que depois que você encontrar a Verdade, você realizará milagres e poderá passear no Cosmos, aí é dado valor. Mas se a resposta é negativa, então você logo se questiona: "Ah! Então para que descobrir a Verdade?! Se não acontece nada! Se nada é mudado, se tudo permanece a mesma coisa... então, para que?" Daí, então, tornaram isso difícil; de modo que você acha que deve meditar um pouco mais, ou se preparar um pouco, ou que você precisa purificar seu corpo, sua mente, sua alma... Que você como está, está impuro. Logo, mais um ideal, mais algo idealizado, prorrogado para outro momento no futuro... E você ainda aceita com o "coração". E daí você medita mais um pouco, e novamente se apresenta, e lhe é dado mais um outro problema. E mais uma vez é prorrogado...

Pode acontecer agora! Aqui! E de novo já posso ouvir sua mente tentando apreender o que foi dito: "Mas acontecer o quê?... Mas observe! Tem algo a acontecer? Te disseram que algo aconteceria, e você vive à espera de que algo aconteça. E eu estou mais uma vez repetindo: esse algo é uma idéia! Você não vai ver luzes e nem sentir uma explosão de êxtase... E você tem buscado quem você é, esperando por isso. Mas não se engane! Não há nenhuma idéia que se assemelhe àquilo que você é!

Na Idade Média, na Europa, existia um grupo religioso chamado "Os Irmãos do Espírito Livre". Talvez uma das poucas tradições da Iluminação no Ocidente. E eles diziam o seguinte: "Você é deus. No mundo fenomenológico, você é uma manifestação, uma emanação de Deus, que, quando termina o seu período corporal, você retorna a Ele, e não existe nada a não ser Deus manifesto e o retorno." Perfeito! Não poderia ser tão simples! Nem mesmo somos separados de Deus, se não uma emanação daquilo que está em descanso... Que emana-se, manifesta-se, e que quando termina o processo de manifestação, retorna! Assim como uma onda no corpo do Oceano. Que sobe, e desce... E terminou!

E agora? Quem é você? Você é a onda? Uma emanação? Em essência, qual é a radical pergunta, qual é a radical resposta?... Tudo o que existe é o Oceano! Não existe onda. Foi dado um nome a algo que é o próprio Oceano. E, quando foi dado um nome para aquilo, foi feita uma separação entre a onda e o oceano. E isso explica talvez você estar identificado com o seu nome, e a sua forma.

Descubra! Existe uma tendência em procurar no lugar errado. Você tem que perceber algo que não pode ser percebido, por você ser aquele que percebe. Não tem saída! Não tem para onde ir! Por isso, páre de buscar! Páre! Stop! Zera tudo! E não esqueça! Não é um zerar, pois não há alguém que zere. Não há nada fora do Todo, fora do Divino, da Essência, da Consciência...

Fonte: http://www.satyaprem.com/

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Marionete do Divino

O que ainda está presente na sua mente como algo que o impede de ver o que eu estou dizendo? Vamos colocar no fogo. Vamos colocar aos leões. Mostre! Traga pra fora! O que a sua mente está guardando como valioso? Se você estiver certo eu vou dar um passo à frente. Se você estiver errado, você vai dar um passo à frente. Eu não posso deixar de ouvir, ouvidos estão sempre abertos. Eu ouço, por exemplo: "Mas se você quiser chegar a algum lugar, você tem de fazer algumas coisas". Concordo. Pra chegar aqui em Buraquinho, tem de pegar o carro e dirigi-lo até aqui. Para chegar a Porto Alegre, você tem de pegar um avião, ou ir de carro, ou caminhando, ou o que quer que seja, mas tem de fazer-se algo. Em relação ao seu Ser, para ver "quem você é", não. O seu Ser não está em algum lugar, Ele está aqui-agora. Se você ainda acha que o seu Ser está em algum lugar que não aqui-agora, você mostra onde fica este lugar. Eu quero saber, na sua mente, que lugar é esse. A priori, todos os lugares na mente são inexistentes, é pura imaginação. Esses lugares, você tem de vê-los, expô-los, vê-los pelo que eles são. "Ah! Mas eu li que tem uma sensação que tem de ser sentida." Mas se é uma sensação que tem de ser sentida, você está tentando reproduzir essa sensação, imitando aquele que lhe falou? E essa sensação uma vez sentida vai ficar para sempre? Mas tudo o que é sentido, tudo o que aparece, desaparece. O que é a Realização de si, pra você? Onde você está tentando chegar? Eu ouço você dizendo que pra chegar em algum lugar você precisa fazer alguma coisa, que lugar é esse? Quando é que você vai parar de imaginar coisas? Quando é que você vai e dar conta que qualquer coisa que você imagine, diga, confirme, ou credite, você está falando puramente de imaginação? O lugar já está aqui-agora. Você não precisa chegar lá, você está lá. Você apenas tem de parar de imaginar que você precisa chegar a esse outro lugar que você imagina.

-EDSON - Desde ontem, com a experiência de ontem, eu tive essa revelação. Pra mim, quando eu pergunto "quem sou eu"? É como se eu não fosse. Eu Sou. Pelo exercício de hoje eu entendi. Quando você pediu pra gente falar do eu mente e corpo, eu senti um alívio muito grande porque eu vi como é fácil falar desse eu. Mas, para falar desse Eu, do qual estamos falando agora, é muito ditícil e, no final, eu senti um conforto muito grande porque foi como se você tivesse me trazido de volta pra casa. Eu percebi que não tem nada fora, que eu estava procurando no lugar errado. Não tem duas coisas, tem uma coisa só. A única diferença é que, de vez em quando, eu faço vista-grossa e, de vez em quando, eu não faço.

Fazer vista-grossa é achar que você "deixa de ser" em algum momento. Fazer "vista-fina" é fazer exatamente o oposto. E mesmo quando eu estou me iludindo com o meu sonho, eu sei que estou me iludindo com o meu sonho. Daí, eu não estou me iludindo com o meu sonho, eu estou "acordado" dentro do sonho. A idéia de uma busca e um encontro pressupõe uma separação. Pressupõe uma divisão. A grande revelação, o grande segredo é que você não precisa chegar a lugar nenhum. Primeiro você tem de ver com clareza que não existe "ninguém", não existe "eu" em lugar nenhum. Porque essa idéia de que você irá encontrar algum personagem, é totalmente ilusória. Não tem personagem nenhum. Você é uma marionete do Divino... Tente encontrar esse eu que manda em você e você encontrará Nada. Esse encontrar Nada, inteligentemente é exatamente a rendição. Quem sou eu para interferir? Eu sou um pensamento. Se eu olho fundo nesse pensamento, eu noto que não tem nada dentro dele. Não existe nenhum "eu". Só existe Aquilo. Aquilo que se expressa e se manifesta de tantas formas. Você tem de ver, antes de mais nada, que aquilo que você é, não é um "eu".

Não precisa nem afirmar nada. Nem afirmar, nem negar. Como é que eu faço vista-grossa? Afirmando e negando. Quando eu afirmo algo, eu nego algo. Quando eu nego algo, eu afirmo algo. Quando eu não afirmo, nem nego; eu não nego nem afirmo. E esse "não nego, nem afirmo", eu Sou.

Toyo era um menino. Ele chegou ao mestre, bateu o gongo, e o mestre apareceu. Daí, o mestre olhou pra ele e disse: -"Toyo, me revela o som de duas mãos". Logo Toyo bateu palmas com as duas mãos. -"Muito bem Toyo", disse o mestre. -"Agora, revela pra mim, o som de uma só mão", o mestre continua. Então, Toyo bateu com uma mão no gongo. E o mestre disse: -"Não está certo, Toyo". Toyo ficou meditando a respeito e veio com outra resposta no outro dia. E novamente o mestre olhou pra ele e disse: -"Não está certo Toyo". E lá foi o Toyo... E foram passando dias. A cada dia, Toyo elaborava uma resposta. Ele foi elaborando todas as respostas que cabiam dentro da mente dele. Até que um dia ele não tinha mais resposta nenhuma e, nesse dia em que ele não tinha resposta nehuma, ele chegou para o mestre e o mestre antes mesmo dele falar disse: -"Não está certo, Toyo." Aí, Toyo desistiu completamente. Quando ele desistiu completamente de não ter resposta ou de ter resposta, ele entrou no Silêncio. No Silêncio que transcende a forma, o negar, o fazer vista-grossa ou não fazer vista-grossa. A realização pura e simples, daquilo que É. Não importa se você vê, se você não vê. Se você lembra ou se você não lembra. Aquilo É e mais nada é. O Toyo inexiste. E nessa rendição, Toyo se prostrou ao mestre. E o mestre disse: -"Agora você encontrou o som de uma só mão".

Quem é que pode estar procurando? Só pode ser um perdido. E o perdido só se perde porque tem idéias de que ele sabe. Quem está encontrado, sabe que não sabe. E esse é "o profundo encontro". Não tem nada pra ser dito. Não tem nada pra ser encontrado. Não tem ninguém buscando. A única forma de saber tudo é saber nada. Não tem nada na sua mente que seja valioso. Tudo conceito. Abandone! Abandone pra você ter a chance de experienciar diretamente a Verdade. Se você tem alguma idéia do tipo: "isso aqui não é e isso aqui é", não é nada. Esqueça! Seja como as crianças. Inocência. Inocência é não saber. Se você sabe, você não é inocente. O inocente não sabe. E eu pergunto: o que você sabe? Saber é uma função da mente, é puro peso, pura experiência passada. De que adianta saber de alguma coisa, se nesse momento, agora, eu estou impondo aquela coisa que eu sei e esse momento não é o mesmo em que essa coisa aconteceu antes?

Busca quer dizer que você está dividido. Primeiro pressupõe-se que você tem de encontrar algo. Que algo é esse, que você tem de encontrar? Busque esse "onde" na sua mente e você vai ver que, na verdade, você está buscando algo que nem você sabe o que é. E aí, você está num torpor, numa perdição profunda porque, como você vai buscar uma coisa e encontrá-la se você não tem a mínima idéia do que seja? Desvencilhe-se da idéia de que você tem de encontrar algo e encontre. É exato. Se eu pergunto: "quem sou eu?" e me dou conta de que não tem "eu", this is Beautiful. Isso é Experiência Zero. Onde tem "eu" em algum lugar? Se eu estou falando de corpo-mente, eu só posso falar em termos de passado. O que ele fez, o que ele deixou de fazer, o que ele acredita, o que ele não acredita, o que ele acha certo, o que ele não acha. Tudo isso é completamente irrelevante em tempo presente. Isso é ego. Isso é ignorância. Isso é identidade.

Mula Nasrudin estava caminhando, olhando pra si mesmo, para o seu botão, para o seu umbigo, para o seu ego e ele passou perto de um poço. Quando ele olhou lá pra dentro, ele viu a lua dentro do poço e disse: "Meu Deus! Preciso Salvá-la." Aí, ele pegou uma corda, jogou lá pra baixo e disse assim: "Segura firme que eu vou te salvar". Ele jogou a corda e ela trancou num negócio e ele ficou puxando. "Que pesada a lua"! Ele pôs toda a força do mundo. Daí, de repente, a corda escapou e ele caiu de costas no chão e viu a lua lá em cima, no céu. E ele disse: "Pôxa! Imagina se eu não estivesse passando. Imagina! Tu não estarias salva"...

Essa é a ilusão do ego. Não tinha lua nenhuma lá dentro. É pura ilusão. Acorde! Não precisa salvar nada. A lua está salva. Você está salvo. Você já está muito bem onde você se encontra, mas você está procurando no lugar errado. E você procura no lugar errado porque existe uma idéia de que você esteja em algum lugar ou que algo deve acontecer. Que algo é esse? Você tem de averiguar na sua mente: que algo é esse. Veja se esse algo que você mantém como o que tem de acontecer ou esse lugar onde se tem de chegar não é um objeto sagrado pra você. "Não, isso aqui é dogma. Eu não posso tocar nisso. Isso aqui, sorry Satyaprem, mas nisso eu não vou tocar. Que tem explosão tem, eu li. Então você é dogmático. Você está apegado a uma idéia e, enquanto você estiver apegado a qualquer idéia, você não pode ficar aqui, porque aqui não cabe nenhuma idéia. As idéias só existem no passado e no futuro. No presente não existe idéia. Existe apenas a inexistência da idéia. Existe apenas Consciência. Idéia não é. A idéia depende da sua mente. Consciência não depende da sua mente. O seu ego depende da construção estrutural da sua mente. A sua Consciência, quem verdadeiramente você é, seu Ser, não depende de construção nenhuma; mora fora do tempo. Sua Consciência está aqui-agora, caso você faça vista-grossa, ou não. Você faz vista-grossa quando você descreve a si mesmo não como Consciência, mas como história. Você tem de ir para o passado para falar de você mas você não existe no passado, quem você verdadeiramente É, É Aqui. Existe também um engôdo, um engano: "Quando eu iluminar"... É uma idéia de que algo vai acontecer no futuro e que vai haver um acontecimento e a partir desse acontecimento, eu estarei iluminado e não mais precisarei me iluminar. Mas iluminar é verbo, é sempre no presente. Não existe um acontecimento senão será mais um no conteúdo da sua mente. "Quando eu Iluminei, anteontem"... Ué! Mas se você Iluminou anteontem, você não está Iluminado agora. Iluminar-se é estar totalmente no presente para todo o sempre.

SATYAPREM
Retiro em Salvador/BA # Agosto de 2001

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Você não é quem você pensa que é

Você não pode ser nada que você esteja vendo, você é simplesmente aquele que vê. Você não pode ver a si mesmo, por que quem veria? Aquilo que nós somos, a Essência ( aqui eu estou usando a palavra Essência), é imensurável, portanto não tem como medir. Nem na largura, nem no comprimento e nem na profundidade. Por isso chama-se de imensurável. No entanto, pode-se saber, pode-se realizar, pode-se reconhecer isso pelo simples motivo de que isso é a nossa realidade.

O objetivo deste encontro é fazer com que você se encontre. Pode-se dizer como um fim de busca.

Pode parecer pretensioso para você nesse instante, mas é assim que é. A meta é fazer você saber quem você é. Não é quem você pensa que é, mas quem você é em realidade. É mostrar à vocês que existe uma série de mal-entendidos que têm sedimentado a sua busca. O que vai ser dito vai colocar, de uma certa forma, de cabeça para baixo uma série de coisas em que vocês têm acreditado. E está tudo vinculado, na verdade, com:"Quem é você?" Essa pergunta clássica, "Quem sou eu?"

Quantos de nós têm perguntado há tanto tempo... "Quem sou eu?" Ou, talvez nunca tenha cogitado tal pergunta, mas eu quero que nesse momento vocês não só perguntem, eu quero que vocês encontrem a resposta. Na verdade, não há resposta para essa pergunta... Há um "ver" nessa resposta, ela não é uma resposta com palavras, com entendimento em si, mas um "ver", um "ver" que não necessita dos seus olhos... Na verdade, não necessita de nenhum dos seus sentidos. Até esse presente instante, você tem vivido, sentido e experienciado o mundo através dos seus sentidos... Eu quero que você tire tudo do seu caminho, da sua frente, para que você possa "ver".

O que eu estou dizendo, são conceitos. Conceitos que apontam para algo. Eu quero que você olhe para esse algo e esqueça os conceitos. Tudo o que eu estiver falando ou que eu investigar será uma experiência minha. Eu quero que você também a tenha. Eu estou aqui para compartilhar com você essa realização, essa clareza. Eu quero que você acorde para quem você é e isso você pode fazer. Você está completamente habilitado a fazer. No entanto, a minha novidade é um tanto quanto frágil, porque eu vou lhe dar uma coisa que você já tem! Eu só quero que você atente e veja com consciência que você já tem, que você é aquilo. Essa é a minha única função.

Isso não vai melhorar a sua vida, mas vai simplificá-la. Você ainda vai morrer, você ainda vai sentir dor, mas tem uma coisa que em nosso processo completo de vida não levamos em conta, não é falado, não é tocado, não é elaborado de forma alguma. Nós vivemos dentro da nossa cultura de uma forma refletida! Nós nos refletimos nos outros, nós refletimos a nossa existência. E uma experiência refletida é secundária. Ela é indireta, não é uma experiência direta de quem somos. Por isso as pessoas sofrem, porque elas vivem de acordo com o reflexo e o reflexo não é o que você é. Você não é o seu reflexo! Você é aquilo que é refletido, você é aquilo que está atrás do espelho!

E o que eu quero trazer para vocês, de uma certa forma, vai ser complicado de "entender", porque isso passa por uma novidade absoluta. Nós nos relacionamos com o mundo como se o mundo fosse um objeto, as pessoas fossem objetos e nós fossemos um sujeito. Bem, a novidade que eu quero compartilhar com vocês é que vocês não passam de objetos também. Essa pretensão de ser alguém, que você chama de eu, é apenas um objeto. E aquilo que você é, transcende tudo isso, porque não pode ser manipulado por ninguém.

Trazer você direto para essa visão, é o propósito deste encontro. Você é capaz de "ver" isto, porque você é aquele que está "vendo"... Tenho uma sugestão: eu quero que vocês consigam, de alguma forma, suspender completamente as suas memórias e as suas idéias a respeito de tudo. Tudo aquilo a respeito do que vocês têm idéia, por mais sedimentadas e comprovadas, são apenas idéias. Ponha na prateleira, imagine que você tenha uma livraria dentro da sua cabeça e lá você tem todas as idéias colocadas em livros: sexo, família, verdade, iluminação, eu, o outro, nós, o que quer que seja. Deixe tudo isso na livraria e tente acessar aquilo que eu quero, diretamente, sem nenhum vínculo com aquilo que você já viu antes.

Você não tem nome, não tem forma, não tem tamanho. Tampouco há sensação que possa descrever você. Todas as sensações ocorrem "dentro" de Você. Não importa o que você faça, Você está observando... Não importa a imagem que venha, o pensamento que venha, a emoção que venha, quem é que sabe disso tudo? Esse, é quem Você é. O foco é nesse que Você é e não nos objetos de observação. Objetos vêm e vão.

Mas Consciência, Atenção... Não importa o que você faça, você está sempre ciente de alguma coisa, não é verdade? Pode não ser aquilo que a mente queira estar consciente de. Você queria falar uma coisa e você esquece, você está consciente de que esqueceu! A Consciência permanece como cortina de fundo para o que quer que seja que aconteça na periferia. É imutável e não depende de você fazer coisa alguma. Não importa o que você faça, se você beber 3 litros de whisky e ficar muito bêbado, você sabe que está muito bêbado e talvez desmaie, perca a consciência periférica, mas aquela Consciência, que não precisa de experiência, permanece, porque Ela é independente, Ela não pode ser experenciada por você, porque Ela é Você.

Mas, quando eu digo Ela é Você, você pensa em você como uma entidade, mas não é você como uma entidade, é você como uma não entidade. É uma imaginação sua que existe alguém que precisa de mais amor, alguém que precisa de menos amor, alguém que precisa de mais liberdade, alguém que precisa de mais dinheiro, alguém que precisa disso e daquilo e daquele outro e que pede para o outro, que também é um ninguém, que satisfaça as vontades desse alguém. É um sonho, que não funciona, já funcionou? Olhe bem para a sua própria vida e diga se funcionou...

De onde que eu foco? Para onde que eu foco? Onde você tem focado toda a sua energia até esse momento? Na periferia, tentando fazer com que os outros entendam você, tentando entender os outros e sempre o que resta é um nível de falência, um nível de fracasso, porque não existe ninguém; porque existe ninguém. Enquanto você foca na periferia você não sabe que não existe ninguém, você então pensa que existe alguém, e assim se complica.

Como é que você vai ver e ficar em paz com esse Silêncio, que é inerente a você, com essa natureza que você pensa ser? Se alguém não lhe dá aquilo que você quer, você observa e aceita, porque não tem outra coisa a fazer. O seu foco muda da periferia das satisfações, dos sentidos... O enfoque então, é naquilo que você verdadeiramente é.

É óbvio que você vai usar o seu nome. É óbvio que você vai se mexer normalmente, quanto mais, melhor. É essa a ordinariedade que o Osho pediu e da qual tanto falava. Seja ordinário! Os outros iluminados que a gente conhece são todos extraordinários. Você não foi ao Himalaia? Como é que você vai iluminar? Explique! Algum astrólogo fez a sua carta natal quando você era pequeno? Ou, você deu três passos quando nasceu? Alguém leu numa folha de bananeira o seu futuro, que você iria iluminar aos 33? Era a imaturidade dos tempos que precisava daquelas histórias. Você não precisa! Fique quieto, saiba, é a sua natureza!

A mentira é que você não é um Buda. A verdade é que não há o que dizer e quando não há o que dizer, o que a gente faz? A gente fica quieto. E a natureza desse Ser que você é, é o Silêncio. Vocês já notaram isso? É uma atenção silenciosa. É um êxtase que não pode ser provado, que não pode ser experenciado por você, porque ele é Você. Para ter uma experiência de alguma coisa você precisa estar fora dessa coisa...

A mente gostaria de fazer exatamente isso, experenciar o que eu estou dizendo. Mas a única prova que você pode ter é: Saiba! Fique quieto e saiba você mesmo. Você não precisa da aprovação de ninguém. Quem que vai lhe dar uma aprovação senão você mesmo? Senão esse Ser que você é? Se esse Ser que eu sou é o Ser que você é, como eu posso lhe dar uma aprovação? Não existe eu, não existe você, só Aquilo. Então é indiferente. Quando você sabe, a autoridade nasce de dentro de você inerentemente, naturalmente, sem você ter de fazer nada... E você pode até ser incapaz de transmitir ou conversar a respeito, mas quem se importa?... Esse não é o ponto. A preocupação única que pode ter é: saiba!

E, preocupe-se sem se preocupar, busque sem buscar, porque não está longe de você não está num lugar inacessível muito embora a mente duvide. Talvez você não veja, tem uma neblina e aí a neblina sai, e lá está o Himalaia, aí vem a neblina de novo e você diz:"não pode estar lá"; e aí sai a neblina e está lá. A neblina é a mente, deixe-a fazer isso por quantas vezes ela quiser, só lembre-se de uma coisa: o Himalaia está lá quer você veja ou não.

Você é iluminado quer você saiba ou não, porque é a sua natureza, entenda isso também. Você não pode possuir isso, ao contrário, isso o possui. Está claro? Não tem como você conter isso dentro de você, como é que a gota vai conter o oceano dentro de si mesma? Não tem como condensar a complexidade de tudo dentro de uma gota. É muito mais fácil, muito mais simples, a gota entregar-se, não é? E, se ela se entrega, ela deixa de ser gota e esse é o seu medo.

"Mas se eu não sou mais uma gota, o que é que vai acontecer?" Não vai acontecer nada, só vai acontecer que você não vai mais ter a ilusão de que você é uma gota e a mitologia diz que talvez você não tenha mais vontade de viver nesse corpo. Mas você não vive nesse corpo, essa é a ilusão da história. É esse corpo que vive em Você! É apenas uma brincadeira da Existência para compreender a si mesma, para ver a si mesma, ela lhe dá esses olhos e toda essa capacidade de compreensão. É tanta compreensão que chega a confundi-lo. A vaca não se confunde, não sei se vocês já observaram. Já viu uma vaca discutindo com o touro? "Por que tu vais com aquela outra vaca?" E quanta coisa acontece nessa incompreensão, nesse mal-entendido, inclusive aquela coisa que a gente chama de comparação. Conhece, não é?

"Eu não sou espiritual o suficiente, aquela pessoa é mais espiritual do que eu", ou o contrário,"eu sou muito mais espiritual do que aquela pessoa". É tudo periférico. A mente questiona tudo isso porque ela acha que a realização da Essência tem uma forma, uma cara, uma estrutura que, se realiza a Essência, você tem de se comportar de uma determinada maneira, provavelmente baseado nas outras maneiras que você já leu em algum lugar. Esse é o seu problema. Você está tentando comparar com as coisas de outros tempos.

A natureza desse Ser que eu sou, desse Ser que nós somos é Silêncio, é Paz. Todos vocês já provaram: ou andando de bicicleta, ou depois de uma transa, ou depois de uma boa comida e um copo de vinho, ou depois da Dinâmica, ou durante a Dinâmica, ou em algum grupo, ou em algum momento, não provaram? É uma coisa que independe , não está sob o seu controle."Não está no meu controle". Mas esse é o mal-entendido da casca da cebola, achando que de alguma forma eu tenho controle sobre o que acontece.Qual é o entendimento da pérola? Não está sob o meu controle, eu não controlo mais. Qual é a natureza dessa Essência que você é? Silêncio, Paz, Verdade são inerentes a esse processo. A Verdade é a natureza desse Ser que você é.

A gente fica esperando aquele livro que virá com aquela palavra chave que eu vou entender em totalidade, mas não tem nada para entender em totalidade. Quantos livros você já comprou e já botou na prateleira da sua casa? E você os leu sem compreendê-los, porque não tem palavras que possam transmitir isso diretamente. Elas podem apenas apontar. O que conta é a sua capacidade de "entender" o simples, e de novo, não é entender. É a sua natureza, não há necessidade de fazer nada, é saber coisas básicas.

É da natureza da mente duvidar, duvidar que eu possa saber, duvidar que possa ser tão simples. Dê boas vindas às dúvidas, duvide! Olhe na direção certa e veja que a dúvida é irrelevante. Tem livros que dizem que aconteceu isto, que aconteceu aquilo. Aconteceu isto e aquilo e aquele outro para aquela pessoa, para aquele corpo-mente, para aquele mecanismo. Quem sabe para você é diferente. Uma coisa transcende essas diferenças periféricas, o que é?

O imperador Wu, da China, foi um imperador que fez muito, construiu muitos mosteiros e trouxe muito dinheiro para o Zen. Ele ouviu que Bodidharma estava vindo na direção da cidade onde ele morava. Ele, então, arranjou um encontro com Bodidharma, chamou-o para o castelo. Quando ele encontrou Bodidharma ele disse:"Eu tenho dado muito dinheiro para os mosteiros, para eles escreverem as escrituras, etc. Eu estou tendo muito mérito?" E Bodidharma respondeu: "Não está tendo mérito nenhum". Ele tinha gasto muito e sabia que Bodidharma era um dos patriarcas vivos e ficou irado com Bodidharma, é óbvio, e então perguntou: "Sabes com quem estas falando?" Bodidharma disse: "Sei". E o imperador: "Quem é você para me dizer uma coisa dessas?" Ao que Bodidharma disse: "Não tenho a menor idéia!" Está escrito, é a história. Eu não sei quem eu sou... É o mesmo significado do saber que você é uma coisa que não tem forma, não tem tamanho, não acontece, independe do que você pensa ou deixa de pensar, do que você faz ou deixa de fazer.

Nós, normalmente, visitamos o mundo através do que a gente pensa dele. Nós vemos as coisas sempre com um filtro. A gente dá nomes a tudo: árvore, animais... Tem uma coisa, no entanto, que não tem nome, e se você vê essa coisa, você não a reconhece, porque ela não é reconhecível. E essa coisa, definitivamente, não faz parte da sua experiência pretérita. Ela é uma coisa sempre nova porque ela vive no aqui e agora e no aqui e agora é onde ela mora.

É quem, na realidade, você é. É o que Bodhidharma disse: "Eu não sei quem sou" e veja bem, todas as pessoas que vieram aqui chegaram a mesma conclusão: "Eu não tenho a menor idéia de quem eu seja!", e é exatamente esse não saber "quem eu sou" que você verdadeiramente é!

Quando você sabe que você não sabe quem você é, você sabe quem você é, porque aí não se confunde mais. Você não vai ficar mais identificado com seu corpo ou com sua mente. E o que eu estou tentando compartilhar com vocês é que, se você percebe o seu corpo e a sua mente, você não pode estar "dentro" deles.

A Consciência transcende o corpo! Por isso é que os "loucos" fazem viagem astral, não sei mais o que... Porque é exatamente isso, eles estão em todo o lugar ao mesmo tempo, na verdade eles não estão viajando, eles estão simplesmente vendo o que pode ser visto e que umas pessoas tem mais discernimento para ver do que outras. Mas não estão viajando nada, não tem ninguém indo a lugar nenhum. Eles não estão saindo do corpo e indo à África.

Se você observar, dentro da própria experiência, você vê que não tem como estar contido no seu corpo. Se você fechar os seus olhos, o que você observa? Não observa que é maior? Maior de tal forma que não sabe onde termina nem onde começa. Veja bem, se a Consciência está em todo o lugar, se a Consciência é tudo, onde que os corpos estão? Não é dentro da Consciência? A Consciência contém tudo. Tudo o que existe é Consciência, mais nada. Não tem nada fora da Consciência!

Tem aquele dizer do Osho que eu vou repetir. Não há peixe dentro d'água que esteja com sede. Já viu peixe com sede? Não, porque a essência do peixe é a água, faz parte, ele está ali, dentro d'água. É apenas uma metáfora quando eu falo a Consciência contém o todo, não dá para pensar em termos de matéria e de que está dentro... É apenas uma linguagem... A expressão que eu quero que você compreenda é que eu estou aqui e o meu Eu, Ele não é contido no meu corpo, Ele transcende o meu corpo e todos os corpos. Tudo está dentro de mim, não dentro mim, mas desse Eu que Eu sou. Porque esse Eu que Eu sou não começa em algum lugar, nem termina em lugar nenhum. Tudo que existe é essa Essência!

Quando você realiza quem você é, o mundo da periferia se torna uma brincadeira. Essa brincadeira os indianos chamam de "Leela". Mas estar identificado com seu corpo-mente é pura ilusão. E essa sensação os indianos chamam de "Maya", a ilusão dos corpos separados. A verdade é que os corpos todos estão acontecendo "dentro" de quem Eu sou. Não é eu Satyaprem, quem eu sou, é a Essência de todas as coisas, a Consciência. Porque quando você entra em contato, quando você realiza a sua Essência, que não é sua, você cessa de ser quem você é, seu limite é perdido... Não há nada, não pode ter nada. Você não tem espaço e não tem tempo, o que há então?

(Texto extraído do livro "Fragmentos de Transparência", cap.4)

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