Dança
– celebrando a vida
“Mudar é fácil quando você se aceita plenamente
como é agora, em vez de tentar mudar
através do esforço e julgamento.”
(Joseph Bailey)
Há
tempos tenho um grupo de meditação que se
chama Escola de Iluminação.
Nesse grupo trabalhamos a iluminação do momento, um
estado corporal e do coração (não-mental) de
extrema alegria e fidelidade no aqui e agora.
Esse estado é
obtido através das meditações que envolvem
dança, movimentos e silêncio.
A dança é uma linguagem bastante antiga, mas foi muito
esquecida em nosso mundo “moderno”. No passado ela era
praticada como forma de alcançar a eternidade e a alegria
em quase todas as culturas.
O homem, o Homo sapiens, segundo vários registros, dança
há pelo menos 50 mil anos e por muito tempo fez disso uma
prática diária.
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Em
nossa sociedade valoriza-se muito a tristeza.
Por exemplo, se você está andando na rua, cabisbaixo,
chorando, é bem possível que alguém tente consolá-lo.
Agora, se começar a dançar na rua, provavelmente será
julgado louco, a sociedade irá prendê-lo.
Em nossa cultura
as pessoas alegres acabam incomodando, porém toda criança
já nasce com a dimensão da alegria, da celebração.
As crianças nascem assim: rodando, dançando, girando
no mesmo lugar, que também é um tipo de meditação
praticada por mestres sufis.
A criança nasce absolutamente
inteira, por isso é bonita. Quando ela tem raiva, é
tão inteira nesse sentimento que se torna bonita. |
Quando está feliz,
ela é inteira. Quando fala, é inteira. Quando pergunta “por
quê?” “por quê?” “por quê?”,
ela é inteira. Por isso é difícil controlar uma criança,
ela tem liberdade, que com o tempo nós perdemos.
Quando eu era criança
me acordavam às 7 horas da manhã, com o dia frio, dizendo:
“Acorde! Vá estudar”. Eu queria continuar dormindo.
O cobertor e a cama quentinha... Eu queria dormir, mas me acordavam. À
noite eu queria olhar a lua, as estrelas, namorar, paquerar, mas vinha
alguém e dizia: “Vá dormir, está na hora”.
Sinto que isso já aconteceu com você. Não é
culpa dos pais. É a “mãe cultura”.
A criança quer dormir,
mandam que acorde; ela quer acordar, pedem para que durma. Nós
nascemos com o sabor da liberdade, aí vem à sociedade, a
religião, a família, e cortam essa liberdade. Qual criança
que ao ver um dia de sol já não perguntou: “Mãe,
posso brincar? Pai, posso brincar?”. “Não, vá
estudar!”. E a criança ouve uma quantidade de “nãos”
absolutamente grandes na vida: “não pode”, “não
pode”, “não pode”. Portanto, vamos perdendo esse
êxtase, a alegria, a dança, a liberdade.
No dicionário podemos
encontrar dez vezes mais palavras que expressem emoções
de tristeza, como depressão, medo, chateação, aborrecimento,
do que as que expressam alegria, felicidade, bem-estar, contentamento.
Para recuperar essa capacidade de
êxtase, um dos caminhos é a dança educativa,
criada por Rudolf Laban. É uma dança para você, para
o dançarino, diferente do balé, em que se fazem movimentos
estudados. No caso de Laban, você dança para você,
fecha a porta do seu quarto e dança. É tão simples,
mas eficaz.
Podemos perceber que quando jovens e adolescentes “saem” para
dançar encontram esse estado de êxtase, pois a dança
é uma porta para a felicidade que nos coloca em contato com o sentir,
com o coração. Você é feliz no momento da dança.
Existe até um texto de um mestre sufi chamado Kabir que diz:
“Dance,
meu coração! Dance hoje com alegria.
As formas do amor enchem os dias e as noites de música, e o mundo
ouve a melodia
Loucas de alegria, a vida e a morte dançando ao ritmo dessa música.
As montanhas, o mar e a terra dançam. O mundo do homem dança
em riso e lágrimas”.
A
dança de Laban envolve oito movimentos:
O
primeiro deles é o de socar, ou arremeter: você
soca com as mãos, com a cabeça, com as pernas, os pés,
com o corpo todo. Isso nos proporciona uma catarse, em que jogamos para
fora muitos lixos que temos no corpo. Nesse exercício, use músicas
fortes.
A
segunda dinâmica consiste nas lambadas leves, como
se o corpo estivesse chicoteando ligeiro, de modo bem flexível,
bem solto. Essas lambadas podem ser também com as mãos,
com os pés, com o corpo todo. Use músicas rápidas.
O
terceiro movimento é o de pressionar, que pode
ser também empurrar, de maneira firme, direta, sustentada, imaginando
que se está tirando algo de você. Use uma música agitada.
O
quarto movimento é o de flutuar. Flutuar como
se estivesse voando, bem flexível, solto, leve. Use músicas
calmas, tranqüilas.
O
quinto movimento são os toques ligeiros, também
chamados de pontuar, lembrando os movimentos da dança break, em
que se pontua com as mãos, com o corpo, em toques bem súbitos.
Use músicas alegres.
O
sexto movimento consiste em cortar o ar como se fosse
uma lança, bem flexível. Use músicas clássicas.
O
sétimo movimento é o de retorcer para dentro,
de modo contínuo, firme, retorcendo-se cada vez mais. Use músicas
suaves.
O
oitavo movimento é o deslizar solto, livre, com
os braços abertos.
São
portanto oito dinâmicas: socar, lambadas leves,
pressionar, flutuar, retorcer, toques ligeiros, cortar o ar e deslizar.
Use músicas celebrativas.
Todos
os movimentos, dentro de sua dança educativa, devem ser
para o alto, na horizontal e baixo, para a esquerda e para a direita.
Podem ser profundos, curtos, na frente, atrás e no centro. Podem
também ser com os pés, a pelve, o rosto, os olhos, ou seja,
você pode dividir seu corpo por partes e mexê-las cada uma
por vez. Um CD especial que pode ser utilizado em suas práticas
é o do filme Tarzan, da Disney.
Essa
dinâmica de Laban — a dança para o dançarino
— é só para você reeducar o corpo, fazendo-o
sentir prazer.
Esse
é o corpo que você recebeu nesta viagem pelo planeta
Terra. Escolha amá-lo ou odiá-lo, ter ou não ter
prazer.
O discípulo
disse ao mestre:
— Aprendi a aceitar o nascimento e a morte.
— O que quer de mim? — perguntou o mestre.
— Aprender a aceitar o que está no meio.
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