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Coluna
OBEAH
(Por: Edmundo Adeagbo)


Obeah é uma forma de xamanismo encontrado nas ilhas da Jamaica, Bahamas, Antigua, Santa Lucia, Barbados, Martinica e Trinidad-Tobago.

Este sistema foi trazido ao Caribe pelos povos escravizados oriundos de Ghana, Togo e Benin na Mãe África. Ao chegarem nas ilhas, seus cultos encontraram as práticas religiosas dos índios taino. Nasceu daí um rico casamento espiritual e uma cultura muito colorida. Dependendo da região, o nome Obeah pode mudar para Winti, Brua, Kembois ou Comfa.

A palavra Obeah, de origem Ashanti, significa poder ou força espiritual. Os sacerdotes-xamãs da Obeah são chamados de homem ou mulher-obeah (obeahman e obeahwoman) e possuem diversas especialidades : o homem-erva (rutman), o homem-oráculo (lukuman) e o homem-feitiço (wisiman) entre outras.

As Forças da Obeah :

A Obeah trabalha com quatro poderes invisíveis :

1. OBY - a energia que permeia todo o Universo,
2. LOA - os espíritos da Mãe Natureza,
3. YORKA - os espíritos dos antepassados ou Ancestrais,
4. KRA - a alma pessoal de cada ser vivo.

Oby é a energia mantenedora do Universo. Ela está em todo o lugar, envolvendo cada pedaço do mundo e cada criatura. Oby pode ser canalizada, armazenada e enviada pelos obeahmen a pessoas ou objetos. Oby não é boa ou ruim, é apenas energia. Não vamos confundir Oby com o fruto Obi.

Cada ser humano, através de seu Kra, está ligado a um Yorka de cabeça (Yorka principal ou guia espiritual) e este liga-se a um Loa de cabeça (ou Loa padrinho ou madrinha).

Existem ritos especiais para invocar os Ancestrais, pedir-lhes ajuda e conselhos. Os Ancestrais fazem parte de nosso dia-a-dia e a morte jamais os separou de nós. Eles são como rios que correm para o grande mar da Divindade Criadora, chamada de Anana na Obeah.

Existem muitas Nações (Ritos) de Obeah, com características e rituais próprios (como em nosso Candomblé). Este artigo fala de um ramo chamado "Culto de Pai Bones" ou Obeah da Trindade, pois nasceu na Ilha de Trinidad no Caribe.

Quem é Pai Bones ?

Para entender esta Nação, devemos conhecer a entidade chefe do culto. Pai Bones é um poderoso Vodun ou Loa (um vodun é um Espírito Divino) que é cultuado em muitas ilhas do Caribe, onde recebe nomes variados.

A Origem de Pai Bones é no antigo Dahome (atual Benin), onde era conhecido como Guedde pela antiga tribo gueddevi, sendo louvado como o Grande Senhor do Reino da Morte e dos Mortos.

No Haiti, pátria do culto Vodu, ele é conhecido como Barão Samedi e na República Dominicana, ele é chamado de Barão do Cemitério, onde é sincretizado com Santo Elias, o profeta. Na Ilha de Trinidad Pai Bones é sincretizado com o famoso Santo Expedito.

O caráter desta entidade nada tem de maligna, diabólica ou macabra. Pai Bones cuida e protege os mortos, possuindo uma natureza alegre, inquieta e sábia. Quando este Loa incorpora nos seus médiuns ou sacerdotes, ele dança, conta histórias divertidas, aconselha e cura muita gente, sobretudo crianças. Também dá demonstrações de poder, jogando nos olhos uma mistura terrível de vinte e uma pimentas, dançando dentro da fogueira ou pegando em ferro em brasa, sem magoar a pessoa que o recebe . Nem mesmo a roupa do "cavalo" é atingida pelas chamas....

Este jeito brincalhão e algumas vezes licencioso de Pai Bones, fez com que ele fosse confundido com Eshu ou Pai Leghba, como é chamado em alguns lugares. De fato, os dois são muito parecidos, na verdade são irmãos !

Pai Bones é representado como um homem negro, vestido de fraque e cartola, segurando uma bengala e fumando um grande charuto. Algumas vezes ele aparece com rosto de caveira, para marcar sua função como chefe dos mortos. Pai Leghba é visualizado como um velhinho sábio, encurvado, portando uma bengala torta e fumando um cachimbo.
Aí vemos a diferença de imagens ! Pai Leghba, nada tem em comum com o "capeta", como querem os inimigos dos cultos africanos.

A Baronesa do Cemitério ou Mãe Brigitte é a esposa de Pai Bones. Muito importante, esta entidade é a dona da prosperidade e da fertilidade, pois o fundo da terra é o seu domínio. A primeira mulher enterrada em um cemitério, torna-se a representante de Mãe Brigitte e seu túmulo passa a receber oferendas e constantes visitas.

A mesma coisa acontece com o primeiro homem enterrado em um cemitério. Ele transforma-se em mensageiro de Pai Bones e seu túmulo ganhará o mesmo cuidado . O cemitério é o lugar onde popularmente se reverencia este espírito, junto com o cruzeiro e também a mata profunda e fechada. Ali, Pai Bones aparece como um torvelinho de vento, zumbindo e levantando as folhas. Devido a isso, alguns sacerdotes dizem que ele é irmanado na mata com Pai Osangne (o nosso Orixá Ossãe ou Osayin).

ESPÍRITOS DA OBEAH :

Os Loas estão divididos em Tribos, Clãs e Famílias. Muitos espíritos cultuados vieram de diversas regiões da Mãe África : AJAJÁ (Yemoja). OBAKOSO (Shango), ADOMEH (Obatala), AYAKBEA (Oshosi) e GIREBETE (Oshun) vieram da tradição yoruba. REI CONGO, BAKULU BAKA, ADI BABI, LEMBA são de origem bantu (congo-angola)

Abaixo mencionaremos os mais populares :

KOROMANTYS : uma Família de espíritos muito importante, que podem tomar a aparência de grandes e ferozes felinos. Eles são excelentes guardiães e exigem uma alta maestria xamânica por parte dos obeahmen. Um dos mais importantes é PAI RAJA YAH, o Rei dos espíritos-felinos. Seu culto é feito separadamente em Irmandades Secretas que trabalham com os espíritos tribais. Outra conhecida entidade é AGASSU, o Loa pantera negra da família real dahomeana.

Os INDYIS, os Caboclos da Obeah, são antigos guerreiros, caciques e xamãs indígenas divinizados. Eles são grandes curadores, conselheiros e protetores. Alguns Indyis são conhecidos no Brasil e invocados na Pajelança, Catimbó, Encantaria, Toré e Umbanda. Exemplo : Águia Branca, Falcão Negro, Cobra Negra, Cobra de Fogo, Maracay, Urimare, etc..

APUKU é um espírito muito selvagem. Ele gosta de comunicar-se através da incorporação mediúnica, para profetizar e fazer curas. O Curupira brasileiro é considerado um tipo de Apuku.

WENTI, que tem o manati como animal de poder, é um Loa das águas doces e possui a forma de um homem branco de longos cabelos. Ele emana um estranho encanto e está ligado a outros espíritos aquáticos com formas de sereias. As Yaras, conhecidas no Caribe também, são parentes do Wenti.

MOROCCOI é o espírito-tartaruga. Seu reino é sobre terra e a água. Seus poderes trazem vida longa aos obeahmen.

BOESIKI é um espírito felino aquático muito perigoso. Ele é um parente dos Koromantyis, mas seu caráter é bem mais violento.

Os PAPAS E MAMAS são os ancestrais divinizados. Alguns são parecidos aos queridos Pretos Velhos da Umbanda. Papa Accompong, Papa Cudjo, Papa Felipe e Papa Nicanor, foram negros que lutaram pela liberdade de seu povo na Jamaica e em outras ilhas.. Mama Francisca, Mama Nany, Mama Marie e Mama Guiné, são espíritos de mulheres sábias e curadoras.

As oferendas aos Loas e Yorkas são feitas na mata, na encruzilhada, no cemitério, na praia e nos altares pessoais das casas dos fiéis, que são chamados de Rogatórios.

Os trabalhos espirituais coletivos são chamados de Promenades e possuem diversas formas e datas festivas. A maioria dos obeahmen também consultam em casa, nos santuários particulares ou Dofos.

A Obeah possui várias formas de oráculo, como o Chembo (semelhante ao jogo de búzios), o Chembuton (que utiliza um colar adivinhatório) e o Bulu (uma mistura de búzios, sementes e ossos de animais).

A consulta ou Luku, é feita com benzimentos e a incorporação da entidade guia do xamã. São utilizadas ervas litúrgicas, pós especiais e tabaco misturado com alfazema e raízes perfumadas.