| Seus
alunos foram se reunindo à sua volta. Passantes pararam.
Animais se aproximaram. Era mesmo o santo Buda que ali se deitara
e fazia um sermão aos que choravam: "Tudo o que principia
tem um fim. Sejam vocês uma luz. Façam dos ensinamentos
seus mestres. Assim eu viverei para sempre". Depois, pediu
silêncio e não se ouviu mais sua voz. Era Sidharta
Gautama, o Buda Xaquiamuni.
Seu
corpo foi perfumado, preparado adequadamente e queimado sobre uma
pira de madeira incensada. Os restos foram guardados em urnas especiais,
inicialmente colocados em oito locais. Essas urnas foram sendo subdivididas
e, hoje, ninguém sabe em quantos locais existem pequenos
fragmentos de seu corpo. Aproximar-se de um pedacinho de osso de
Buda traz méritos infinitos e faz com que o bem e a verdade
se manifestem. Buda é o desperto, o sábio, que faz
o bem a todos os seres.
Dia
19 de junho, será feita uma grande cerimônia para as
relíquias de Buda, que, pela primeira vez, chegam ao Brasil.
Elas vêm de três países da Ásia. Essas
relíquias viajam o mundo há três anos, desde
que a Organização das Nações Unidas
reconheceu o festival de Vesak. Sua caminhada é de alegria
e de paz. Comemora o grande sábio da Índia, que pregava
compaixão e sabedoria.
É
de bom auspício vê-las chegar a São Paulo. Estarão
no Sesc Pompéia, de 19 a 22 de junho, emitindo bondade e
compreensão. Todos poderão visitá-las. Haverá
uma grande recepção e preces de louvor. Preces pedindo
um favor. Haverá preces de amor e preces por destemor. Preces
de quem confia na possibilidade de transformar o mundo através
da simples verdade. Preces pelo bem-estar do país, das multidões,
sem discriminações. Preces contra a violência
das gentes e da natureza. Preces por uma cultura de paz, inclusão
e ternura. Preces pelo cuidado de cuidar, sem desviar verbas. Preces
para alcançar a fome zero no mundo. Preces para acalmar os
corações taciturnos, guerreiros e predadores. Preces
para amansar os furiosos destruidores de vidas, de lares, de esperança.
Preces para transformar mentes fechadas, corruptas, amargas, vingadoras
e egocentristas em mentes amplas, corretas, doces, cheias de compreensão
e prontas a se doar pelo bem da criação.
Criação
que é inventada a cada momento por gestos, sorrisos, palavras
de amigos e pensamentos de irmãos. Unidos na crença
que não separa. Na crença que integra os seres e a
natureza no respeito à vida em todas as suas formas. Crença
de que é possível mudar. Mudando sem cessar e sem
desistir da esperança. Esperança, não de esperar,
mas de "esperançar".
Vamos
juntos unir nossas vozes em preces profundas como pede o papa em
Roma. Vamos juntos unir nossas vidas em meditações
isentas de intenções pessoais como pede um Buda em
qualquer lugar. Que a Terra seja amada e respeitada. Que os seres
vivam a bondade. Que sejamos sabedoria e compaixão.
Que
possamos emitir raios luminosos de ternura, de respeito, de inclusão,
de direito, de deveres, de integridade, de vida com qualidade, de
equidade e de paz.
Seja bem-vindo Xaquiamuni Buda.
Suas
relíquias são as montanhas, as terras, o céu,
as águas e o ar. Suas relíquias estão em toda
a parte e em meu coração.
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Coluna
APENAS UM CÍRCULO
Nossa
vida é um círculo. Cada uma de nossas vidas é
apenas um de muitos círculos...
Nossa prática é realizar que todos os muitos círculos
são um círculo.
Recentemente
uma pessoa que começou a praticar Zen me perguntou: "Eu
não conseguia encontrar solução para alguns
de meus problemas fundamentais, então comecei a estudar Psicologia.
Agora que eu comecei a praticar Zen eu me questiono se serei capaz
de encontrar soluções. Talvez não haja soluções".
Eu
positivamente digo que há uma solução e que
você pode encontrá-la. O Buda histórico e muitos
outros encontraram tal solução. Mesmo no presente
há muitas pessoas que já encontraram ou que irão
encontrá-la. Então o que é isto? O que verdadeiramente
nos dá satisfação? Um de meus professores Yasutani
Roshi costumava dizer quando seu professor Harada, que foi um grande
mestre Zen e um preciso estudioso, falava sobre Budismo para qualquer
grupo, ele primeiro desenhava um grande círculo e dizia:
"Isto é Zen". Apenas um círculo.
Talvez
cada um de nós tenha alguma definição do que
é um círculo, dependendo se somos cientistas, psicólogos,
filósofos, artistas. Podemos dizer muitas coisas sobre o
círculo. Se interpretarmos abstratamente como perfeição,
compleição, não surgido, não extinto,
este círculo contém todas as coisas. Nossas vidas,
elas são um círculo. Nossa vida é um círculo.
Cada uma de nossas vidas é apenas um de muitos círculos,
cada círculo sendo perfeito, absoluto. Embora esses círculos
se mesclem, talvez nem mesmo dois círculos possam coincidir
exatamente. O círculo de nossa vida é um maravilhoso
mandala, que inclui todos os círculos, todos os mandalas.
Nossa prática é de apreciar verdadeiramente este único
círculo.
Da Revista The Ten Directions
- ZCLA Vol I nº 2 Maio 1980.
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Coluna
PARA DESCANSAR A ALMA
(Por:
Monja Coen)
Arranje
um cantinho sossegado e uma almofada gostosa. Acenda um incenso
de sândalo. Sente-se com as costas bem retas. Coloque as mãos
sobre os joelhos, com as palmas para cima e balance o corpo lentamente
da esquerda para a direita, de movimentos maiores a movimentos menores,
como um pêndulo, até encontrar o centro de equilíbrio
do corpo.
Pare
aí. Inspire profundamente e solte o ar lenta e completamente
pela boca. Relaxe os ombros. Inspire novamente e solte o ar pela
boca. Então cerre os lábios, coloque a ponta da língua
no céu da boca e respire pelas narinas. Mantenha os olhos
entreabertos, apenas pousados a sua frente.
Ouça
todos os sons. Sinta todas as fragrâncias. Perceba o ar, a
temperatura em sua pele. Você está pensando? Ou não
está pensando? Verifique sua postura. Costas eretas. Cabeça
como se um fio puxasse para o céu. Pernas firmes pela força
da gravidade. Não julgue. Nem certo nem errado, nem bonito
nem feio. Seja. Apenas sentar. Intersendo com tudo que existe. Que
bom estar viva. Este instante aqui e agora é o céu
e a terra. Isso é tudo. Tudo é nada.
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Coluna
VIVA O PRESENTE
Uma
vez um jovem que havia mudado de emprego muitas vezes veio me visitar,
e me contou seus sonhos. Ele queria ser isto e ele queria aquilo.
É bom ter sonhos sobre o futuro. Você pode ir além
dos seus limites e conseguir mais. Mas não é sábio
esquecer que, embora uma visão do futuro seja necessária
para colocar você no caminho agora, se você mantiver
seus olhos focados no horizonte muito adiante, você não
verá o buraco aos seus pés. E você cairá
de costas sem ter para onde ir. Se os seus sonhos vão ser
apenas sonhos ou se os sonhos se tornarão realidade, depende
de como você está vivendo agora.
Mestre
Dôgen (1200-1253) expressou iluminação com esta
frase: "O desabrochar da ameixeira é a primavera".
Mais tarde essas pétalas caem no chão. Se a maneira
na qual vivemos nos dá a alegria da primavera também
pode levar embora a alegria da primavera e trazer a dureza do inverno.
Mesmo que o grande caminho da vida se abra à nossa frente,
a nossa maneira de viver pode não usar as oportunidades.
Por outro lado, um grande portão de aço, sem nenhum
sinal de abertura, pode abrir-se de par em par devido a algum esforço
que hoje fazemos.
As
pessoas cujas vidas têm sido infelizes ou cheias de atos vergonhosos
geralmente ficam esmagadas pelo grande peso do seu passado e é
difícil para elas recomeçarem. Mas não são
os erros que arruínam uma pessoa, é o constante pensar
sobre eles. Seja quão maravilhosa tenha sido sua vida no
passado, quando o presente não é bom, simplesmente
não é bom. E também é verdadeiro que
seja quão infeliz ou vergonhosa sua vida tenha sido no passado,
se você está bem agora, você está bem.
Se você se desanima por causa dos enganos passados, isto,
na verdade, depende de sua atitude atual em relação
a eles. Você tem que aceitar que o seu passado fez o que você
é, mas não determina como viver o presente. Assim
não existe realmente uma má experiência. É
importante ser capaz de aceitar essas experiências como valiosas,
digeri-las para que se tornem alimento do presente.
Se
pessoas de muita idade ou doentes com pouca esperança no
futuro compararem sua fragilidade presente com o vigor de sua juventude,
apenas se tornariam mais frágeis, tristes. Não é
sábio comparar.
De Shundo Ayoama, trecho
do texto " Beleza da Transciência ", publicado na
revista Dharma World da Kosei Publishing Co. em 1995.
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Coluna
ODE A KIGEN OSHO
(Por:
Monja Coen)
Ele
era um floricultor feliz. Tivera seus filhos e uma companheira amiga
e vivia cultivando a terra e as flores belas. Bebia em algumas noites,
com os amigos, levantando o copo de cerveja ou o de saquê
entre os dedos grossos e fortes, manchados pela terra, e cortados
pelo frio.
Nas
cerimônias anuais das danças de roda, subia as escadas
montadas, especialmente, para os tambores enormes. Lá, ele
tocava, revezava-se com amigos antigos. Tocava um som sereno e possante.
As mulheres dançavam, e as crianças, os idosos e muitos
dos homens também se alegravam entrando na roda.
Dizia-se,
então, que os ancestrais, todos, sem exceção,
vinham verificar como estavam seus descendentes vivos. Era preciso
dançar com alegria e mostrar que se mantinha a tradição
do Japão, mesmo em terras do interior do Brasil. Tudo isso
era feito no terreno compartilhado pelo templo budista e pela Associação
Cultural do Japão.
Ele
parecia feliz. Alto, encorpado, sempre disposto a ajudar nos arranjos
e na preparação. No final da festança, também
ajudava a por tudo de lado. Foi a ele que caiu a incumbência
de se tornar o monge do templo. Foi solicitado e disse não.
Afinal, era floricultor. Se seu pai fora monge no Japão,
isso fazia muito, muito tempo. Não. Mas o irmão mais
velho havia sido o fundador do templo na cidadezinha. As imagens
todas, os altares, tudo era feito no Brasil. Um templo bonito, limpo,
em um terreno amplo, mas o monge fundador, irmão dele, havia
voltado ao Japão. O templo não tinha monge responsável.
Fazia falta um monge local. Insistiram. Ele coçou a cabeça
e acabou aceitando. Já estava com mais de 60 anos, e o trabalho
no campo começava a pesar.
Mudou-se
para a casinha nos fundos do templo. Senhor e senhora. Ela iniciou
seus estudos com as outras senhoras dos cantos sagrados. Cozinhava,
varria, limpava, cozia e sorria. Era feliz. Ele aprendia a rezar,
a usar roupas antigas e sua memória voava para os tempos
de infância.
Ainda
era difícil ficar à vontade, sentado na frente de
todos os amigos e conhecidos, lendo rezas, encomendando espíritos.
Vinha pedir auxílio, orientação, em São
Paulo. Era um homem bom e simples, que estava sempre pronto a ajudar.
Fumava disfarçadamente. Trabalhava eficientemente.
Do
Japão vieram seus parentes ricos e importantes, representantes
de templos grandes. O fizeram monge em frente a todos da cidade.
Vestiu definitivamente os hábitos negros. Não sei
quanto tempo se passou e ele teve um derrame. Ficou paralítico.
Pensaram que iria morrer. A mulher se desdobrou em cuidados. Ele
era pesado, mas ela dava conta. Banhava, vestia, alimentava e rezava.
Ele foi melhorando, ela foi definhando, definhando e morreu.
Ficou
sozinho o monge, em uma cadeira de rodas. Um dos filhos veio cuidar
do pai. Ele já não ria, já não mexia
nas rosas. Seus dedos ficaram limpos de terra e não levantavam
copos. Nas cerimônias solenes, se sentava encolhido e magro.
Chorava feito menino, triste de seu destino.
Morreu
em 21 de julho, sozinho em seu quarto. Adormeceu e se foi, no silêncio
da madrugada. Que o venham receber todos os anjos e fadas. Que o
venham acolher os budas. Eu o conheci bem e, no seu olhar, notei
a pureza, a honra e a bondade. Ascende Kigen Osho, monge de hábito
negro. Sobe para a luz mais clara e mais radiante, para o céu
que adorava contemplar. Reencontra sua amada, seus pais e todos
aqueles companheiros que, antes de você, se foram, alguns
dos quais você encaminhou ao orar. Ascende para a luz mais
clara e encontra os budas iluminando para sempre e sempre a sua
estrada. Mãos em prece. Namu Xaquiamuni Buda.
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Coluna
"INTERSER"
(Por:
Monja Coen)
Certo
dia, fui ao grande mosteiro da Paz Eterna, em Fukui, no Japão.
O mosteiro tem cerca de 70 edificações, é um
dos mosteiros sede da tradição soto-zen budista e
pode abrigar mais de 500 monges. Eu fui para uma visita formal e
me colocaram em um grande aposento. Lembrei-me da primeira vez em
que subi essa montanha, há muitos anos, cheia de expectativas,
sonhos e alegria para participar de um retiro especial.
Eu fazia parte de um grupo
de monjas do mosteiro feminino, onde morava há mais de dois
anos. Tinham nos colocado nesse mesmo aposento. Éramos seis
monjas esperando pacientemente para que nos conduzissem ao refeitório
e às salas de estudos, meditação e preces.
Em um mosteiro sede, tudo é muito certinho. Ainda mais sendo
um mosteiro masculino, no qual nós, monjas, só éramos
admitidas em raras ocasiões. Minhas companheiras, todas japonesas,
sentaram-se alegremente para bebericar chá e conversar. Algumas
costuravam uns paninhos. Não acreditei.
Há anos sonhava chegar a esse mosteiro. Há anos queria
conhecer de perto o templo do mestre que tanto me inspiraria me
tornar monja zen budista. Elas não pareciam interessadas
em sair de lá. Não agüentei. Sem dizer nada,
como quem vai ao banheiro, saí sozinha e comecei a percorrer
os longos corredores, as imensas escadarias de madeira. Jovens monges
ensaiavam cerimônias, correndo, andando, entoando sutras em
voz alta. Outros faziam faxina. A cozinha era enorme, e eles estavam
de avental branco e com toalhas brancas na cabeça. Nenhum
leigo, apenas monges:
Quando
cheguei ao salão memorial do fundador, meu coração
bateu mais forte. Queria entrar, fazer reverências, oferecer
incenso. Nisso, fui interpelada por uma jovem, com microfone na
mão. Era de uma rádio local e queria saber minhas
impressões sobre o mosteiro. Surpreendeu-me. Respondi a algumas
de suas questões até que ela me perguntou qual era
a essência do budismo. Naquele momento, um sino badalou e
ecoou por todo o mosteiro. Sem pensar duas vezes, disse: "O
som do sino".
Zen
não é nada especial. Budismo é estar desperto
e completo no instante em que estamos. Passando por essas memórias,
entrei no aposento, conduzida por um noviço de cerca de 20
anos, que me pediu para aguardar até que viessem me chamar
para os cumprimentos formais. Assim o fiz. Anos haviam se passado
e, entre outras coisas, eu também aprendera a esperar.
Era
o entardecer. Tudo estava silencioso, a não ser por alguns
pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso
de sândalo que trouxera, fiz um pouco de chá e, enquanto
o bebia lentamente, me pus a olhar para a palha de arroz que forrava
o chão de todo o aposento. De repente, percebi o chão
vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava
as longas hastes douradas. Foi_ tudo muito rápido, mas muito
vívido. Pouco depois, o chão voltou a ser a palha
de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso,
mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles
tatames suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande
reverência pelos campos de arroz.
A
interdependência; ensinada nos textos sagrados, está
em toda parte. O arroz só é possível se houver
água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à
sua volta; senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante
plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo,
varais de roupas coloridas, minhocas e até nossos pensamentos
e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz
é feito de coisas "não-arroz". Cada um de
nós existe graças a todos os "não-nós".
Palha de arroz. Tatame. Vislumbre breve do milagre de "interser".
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Coluna
DECISÃO TOMADA
(Por:
Monja Coen)
A
decisão é sua. Temos de decidir sobre o emprego, a
festa, o casamento, os filhos, o almoço e o jantar. Temos
de decidir o castigo, a pena, a punição e a absolvição.
Reflita se é uma decisão boa para você e para
o mundo. A decisão é sua.
"Filho
causa problema", explica a mãe, chorando. "Faz
bobagem, e é a mãe quem sofre." Tem filho que
corta gente. Tem filho que faz gente antes da hora.
A
decisão é sua. Começa com a escolha do nome,
que pode ter tantos sentidos. Cuidado! Não se aperreie. Isso
é comum entre as pessoas. Há como sair da confusão?
Qual o caminho certo? Primeiro, respire. Solte todo o ar dos pulmões,
esvazie o peito e o coração. Deixe o ar entrar. Há
um ritmo natural. Perceba o seu próprio ritmo.
Tendo
aquietado o corpo e a mente, sentado ou de pé, sinta a vida
pulsar em cada artéria, em cada veia. Nas teias da memória,
procure o princípio do princípio, lá se encontra
o vazio. E essa vastidão é repleta de vida, palpitação,
pensamentos, silêncios, amores, desafetos, carinhos, repulsão,
tristezas, aflições, ansiedades e certezas.
O
maior presente é não ter medo. Se nada pertence ao
ser, se somos um punhado de ossos, carnes, nervos, tendões,
sangue, pleura, corações, sentidos, percepções,
memórias, construções mentais, consciência
e tudo o mais, somos a ligação disso tudo. Um organismo
é feito de partes. Se uma parte falhar, todo o resto sofre.
Como
saber o certo? Um dia, foram indagar exatamente isso a Xaquiamuni
Buda. Cobrindo ambos os ombros com seu mato, ele disse: "Levar
o maior número de pessoas ao verdadeiro (a verdade que está
dentro de cada um de nós) é o bem".
Somos
a verdade do universo, alguém pode duvidar? Buda também
recomendava a prática das seis perfeições.
Quem as pratica atravessa do lado da dor, da tristeza, do desconforto
e dos medos para a margem da sabedoria.
A
primeira é a doação. Doar não apenas
as sobras, o que não se quer mais. Doar coisas materiais,
como alimentos, mas também educação, capacitação
e saúde. Doar os ensinamentos que nos levam à verdade,
doar o não medo de saber que estamos a todo o tempo nas mãos
do maior bem-querer.
A
segunda é manter os preceitos. Não matar, não
roubar, não mentir, não negociar tóxicos, não
abusar da sexualidade, não se elevar e rebaixar os outros,
não falar dos erros alheios, não ser movido pela ganância,
não ser movido pela raiva, não falar mal dos seres
iluminados ou de suas comunidades.
A
terceira perfeição é a paciência. Paciência
de fazer, ser, pensar, planejar, esperar o momento e recomeçar
tantas vezes quantas sejam necessárias. Sem pressa, com precisão.
Pacientemente amando, cuidando, compartilhando a vida de todos nós.
A
quarta é a assiduidade, o esforço contínuo.
Não deixe a peteca cair. Quem quer fazer fogo com pedras
esfrega sem parar até a faísca surgir. É a
constância da macia e pequena gota de água que faz
a rocha se abrir.
A
quinta perfeição é a meditação.
Com o coração tranqüilo e a respiração
adequada, perceba tudo o que somos nessa estrada.
A
sexta e última perfeição é obter a sabedoria
suprema. Ela permite perceber a verdade em tudo, em todos e em qualquer
lugar, sem que reste uma situação de enganação
ou falsidade.
Aqueles que são capazes de viver dessa maneira, encontram
na vida a bondade e a justiça. Abrindo portais para infinitos
outros seres. Para que todos possam se beneficiar.
Revista da hora, 5 de
outubro de 2003.
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Coluna
"CACHORRINHOS"
(Por:
Monja Coen)
Certo
dia, um monge noviço entrou na sala do mestre Abade. Fez
as reverências de praxe, dobrando joelhos e encostando a cabeça
no chão por três vezes. Ofereceu incenso suave. Ajoelhou-se
e, com as mãos unidas, palma com palma, dirigiu-se a seu
superior:
- Venerável
mestre, o cão possui a natureza Buda?
- Mu!, respondeu o Abade, que nada mais disse.
Isso
aconteceu no século 8, na China. Desde então, tem
sido usado por mestras e mestres zen para levar seus alunos a penetrar
o portal dos sábios iluminados. É um portal sem portas.
Não há cercas, não há grades, não
há soldados armados, não há terroristas ou
bombas. Não há passaportes, documentos, livros, paramentos
ou passe especial que permita a entrada. Só entram os que
conseguem transpor essa barreira sem forma, sem eira nem beira.
E é um cãozinho que abre esse portal sagrado?
Alguns levam anos para entrar nesse recinto de
sábios. Outros, em pouco tempo, percebem, com toda a clareza,
muito além de ter e não ter. Natureza Buda quer dizer
natureza iluminada. O cachorro tem o sagrado? Seria a pergunta de
outra forma formulada. O mestre, sábio e bondoso, vendo o
noviço confuso, solta uma só silaba e com ela enche
o mundo: "Mu!"
Mu não é um mugido, é um
rugido de leão. Rei dos animais da selva, ele cala todos
os outros. Naquele silêncio que impera, sem concordar ou discordar,
a natureza iluminada reluz sem parar.
Houve outra ocasião em que esse mesmo mestre famoso, de nome
Joshu, respondeu a outro noviço nervoso: "Yu!"
Se mu é uma negativa, yu é a afirmação.
Estaria louco o mestre, teria perdido a razão? Não
é ter nem possuir. O sagrado, a natureza iluminada, não
se tem ou deixa de ter. É em tudo o que existe, sem diferenciação.
É na vida e é na morte. É no ser, em todo ele,
sem se esconder, sem escolher, sem diferenciar. Não fica
só em um cantinho, em um coração ou ninho.
Não é privilégio dos ricos nem dos pobres,
dos gays ou dos travestis, das crianças ou dos idosos, dos
religiosos ou dos ateus, dos seres humanos ou dos planetas, estrelas,
galáxias, cometas. O velho monge sábio, sem muitas
explicações, leva à compreensão suprema,
gritando alto e em bom som: "Mu!".
Há algumas semanas, uma cadela enorme que
eu conheço, daquelas que parecem bezerros, de raça
do gue alemão, cruzou com um cão japonês da
raça aláta, de porte médio, que há anos
com ela convivia e que, por mais que tentasse, não conseguia
montar na bezerrona. Pois, um dia, eis o milagre. Ela ficou prenha.
Nasceram à noite. Embrulhadinhos, um a um, saíam já
se mexendo. Depois de três bem paridos, um congelado, morto,
duro, parado. De nada adiantaram as preces e as massagens. Pobre
criaturinha. E nós, seres humanos, que esperamos por muitos
meses, um só filhinho? Como deve ser doloroso um natimorto,
pensei. Mal sabia que, em alguns dias, teria de fazer o enterro
de um bebê morto antes de nascer.
Outros nasceram vivos, mas a mãe desajeitada
me recebeu de manhã assustada. Um pequeno se via no canto
de boquinha escancarada. No dia seguinte, mais um que ela sem querer
havia esmagado. Quatro sobreviveram, cresceram, cada um com o seu
jeito. A gordinha comilona, a dengosa derretida, o machinho saltador,
a alegre levadinha. Será que o cão possui a natureza
Buda?
Em minha sala entra um jovem praticante, que há semanas vem
pensando e meditando sobre mu, Buda, cão, e diz:
- Entendi o mu agora.
É tudo. Está em todos e em todo o lugar.
- Isso é uma parte, respondi.
Ainda
falta completar. Não se entende só com a mente. Seja
mu ao respirar.
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Coluna
"EM DEFESA DAS DIFERENÇAS"
(Por:
Monja Coen)
Luz
e sombra. Noite e dia. Positivo e negativo. Feminino e masculino.
Como delinear a diferença? O que separa é o que une.
O
Sol é a deusa da luz. A Lua é o lua refletindo a luz
dela, tão bela, que dá vida à sua vida. Separamos,
diferenciamos, discriminamos e criamos situações em
que não sabemos como agir. Ela é mulher, mas provoca,
inflama a ira, atreve-se a querer ser como os homens. Quem deu o
padrão? Ele é o macho sem sensibilidade, que não
houve nada, só esmurra e grita. Será que é
assim? Será que somos assim de verdade? Veja lá dentro
como tudo se funde no homem que chora e na mulher que combate.
Homens maquiados, roupas de grife, cabelos pintados, gestos delicados,
suaves, mãos bem tratadas. Bigodes, barbas, anéis
e correntes já não são seus enfeites. Também
usam brincos. Alguns delicados, brilhantes ou dourados. Outros,
como os nativos índios amados, colocam madeira para abrir
buracos nos lobos da orelha de um lado ou dos dois.
Os
piercings nas bocas, nas sombrancelhas, nas mamas, pelo corpo espalhados.
Sinais de autocontrole, de suporte à dor, como as tatuagens
em locais delicados.
As
mulheres igualmente se vestem com calças, sapatos enormes
de solas bem altas. Nem mais pintam os lábios do antigo carmesim.
E tudo se confunde para quem não consegue ver além
da superfície.
Na sua macheza, ensinada e aprendida, precisa controlar e dominar
a fêmea. Mas a jovem de hoje é incontrolável.
É mais homem. Relacionamentos quebrados. Surgem atritos,
enfrentamentos, confrontos e deslocamentos.
No
jornal, os meninos de mãos na cabeça. Estariam todos
se alongando ao sol de verão? Ou eram as armas de seus outros
irmãos que estavam apontadas em sua direção?
Prisioneiros
de celas fugindo por túneis. Prisioneiros de guerra sofrendo
torturas. Prisioneiros nas casas de muros cada dia mais altos. Até
onde subirão os muros que nos protegerão? Há
proteção contra nós? Policiais em blitz, com
armas na mãos. Tanto perigo, tanta aflição.
Uma
simples mudança de orientação. Mais feminilidade
em nossa canção, em nossa caminhada compartilhada.
Mais linhas arredondadas nos prédios, nas casas, nas mentes
e no coração. Valor à vida, com responsabilidade
e dignidade. Uma corda muito esticada se parte. Uma corda frouxa
não cumpre sua função. Não a corda que
enforca, nas penas de morte, que causam mais penas em toda a nação.
Nos
E.U.A, foi feita uma enquête em que perguntavam se a vítima
se satisfazia assistindo à morte do agressor. Morte julgada
e condenada por corte suprema. Não adiantava. A dor continuava.
“Queria ver de novo e de novo ele (ela) morrer.” Só
se morre uma vez.
Na
estrada, a caminho do aeroporto, há ainda alguns pássaros
que migraram. Lagos refletem luzes e galhos. Outono dourado nos
arredores de Nova York. Quando nos lembramos de 11 de setembro,
por causa de um carro todo pintado com a bandeira, ficamos em silêncio.
Um silêncio triste e pasmado, de uma dor profunda que trascende
a vingança, o ódio e o rancor. Silêncio que
se compromete em um gesto de dor a jamais responder à violência.
Tarefa difícil. É fácil gritar, é fácil
brigar, é fácil morrer e, até mesmo, matar.
Difícil e forte é quem age com acerto. Não
apenas reage, boneco manipulado. Força e coragem precisam
aquelas pessoas sinceras que fazem a opção de negar
tudo que contrarie o bem da verdade, da vida.
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Coluna
O RETIRO E A VERDADE
(Por:
Monja Coen)
Acordávamos
antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos
em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos
o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos
os dias. De meditação em meditação,
silêncio e orações. Plena atenção
aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não
acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor
da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.
Havia
a dúvida. Havia o medo de perder á razão. Como
se perde a razão? Primeiro, seria de bom senso encontrá-la.
O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem razão?
Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?
Em
um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: "Não
há religião superior à verdade". Era o
que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre
nós mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e
logo nos desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um
baú trancado em um sótão antigo, cujas escadas
rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e
luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva,
o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais procuramos?
Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível
a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos
verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século
13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles
dizia que o universo é uma jóia arredondada e que
não há nada fora dele.
É
impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora não
existe. Tudo está incluído e se transformando a cada
instante.
Esperando
o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração,
eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece
tão simples e é tão difícil. Poucos
conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos.
Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música,
teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser
amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
Outro
dia, alguém me disse que ciúme e inveja são
diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta,
mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer que
exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para apagar o invejado
da cena. Perigoso.
Perceba
suas emoções, seus pensamentos, sensações.
Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam
muito. Responsabilidade. Escolha.
À
noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque
do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática
foi declamado: "Vida e morte são de suprema importância.
O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um
de nós deve se esforçar para acordar, para despertar.
Não desperdice a sua vida".
Saíamos
da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros, nada. Mas
a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está
sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria,
nada entendemos. "Somos a vida do Universo em constante transformação",
outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós
sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores
e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
Quem
sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou o
todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a borboleta
e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da mente.
Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana, sentindo
a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as luzes e
as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O retiro acabou
e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo que pôde
apanhar ou o que soube largar.
(Homenagem
à Semana da Iluminação de Buda)
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Coluna
ENVELHECEMOS JUNTOS E
MORREMOS JUNTOS
(Por:
Monja Coen)
Eu
tinha 7 anos e estava com o meu avô.
Ele
me ensinou a não mentir e a sorrir. Vovô, seu Dê.
Foi com ele que parei em um viaduto no centro da cidade. Era fim
de tarde e aviões da FAB jogavam papéis prateados
pelos 400 anos de São Paulo.
Nossa São Paulo já percorreu mais meio século.
E eu com ela. Meu avô não está mais aqui, mas
eu ainda estou lá com ele, apanhando os papéis ao
vento.
O
tempo somos nós. Nós somos o tempo. A Terra gira em
torno do Sol e todos nós giramos junto. Envelhecemos junto
e morremos junto. Nascemos, renascemos e tornamos a morrer.
São Paulo envelhece e nós envelhecemos com ela.
Há
muita gente indo embora. Muita gente procurando Goiás, Mato
Grosso, Minas Gerais, pois dizem que São Paulo está
violenta, suja, feia, maltratada. Dizem que São Paulo está
malvada, gelada, endurecida. Não dá mais empregos
nem moradias. Está superlotada, estressada.
Só
que ela não fica deitada, dormindo e comendo. São
Paulo fica acordada. Dia e noite, noite e dia, como a vida, como
nós. Minha neta vem dizendo que anda com medo. Gosta
tanto da vida, que tem medo de morrer. Se tudo o que nasce morre,
por que o medo? Em parte, por causa dos filmes de horror que o irmão
de sua amiguinha aluga. Somos o que vemos, o que ouvimos, o que
falamos e o que sentimos. Neta, veja filmes que alimentam a verdade,
a sabedoria e a ternura.
De
filmes que alimentam o pensamento, morreu o diretor de cinema Rogério
Sganzerla, cuja mulher, Helena Ignez, monja budista entre tantos
outros papéis, acompanhou a sua passagem. O personagem de
ontem tornou-se real. Ficou calma, tranqüila, rezando baixinho
do livro que ele lhe dera há 30 anos. Budismo tibetano, o
livro dos mortos, contando o que atravessamos depois de morrer.
Dizendo que tudo o que você pode encontrar ali foi e está
sendo criado por sua mente. Então, não se ausente.
Não se assuste nem fuja. Não se apegue nem queira.
Deixe que tudo passe como o sonho que somos, indo para a luz mais
forte, mais bela. Teria sorrido, Rogério, que ria de suas
próprias irreverências? Expirou e não inspirou
mais. Um mestre zen costumava ensinar que o segredo da mente tranqüila
é expirar lenta e suavemente e desaparecer no vazio. Depois,
inspirar lentamente e ir ressurgindo em cor e em forma. Novamente
expirar como se fosse a última vez. Sem querer nada, sem
precisar se mostrar, sem esperar nenhum troco, retorno, agradecimento.
Sem desejar o sucesso, a riqueza, o amor, a sabedoria, o caminho,
a nobreza. Como será expirar pela última vez, sabendo
que é a última vez? Diz o mestre que nesse momento
a mente está naturalmente tranqüila, e que isso é
o zen.
Você
pode, eu posso, todos podemos, pois todos sabemos respirar. Não
há necessidade de drogas, de formas secretas, palavras sagradas,
textos imortais. Basta saber respirar, suave e macio, no ritmo natural,
sem forçar nada, apenas observando o que acontece depois
de expirar, sem nada esperar.
Poesia é como manto de monge, feita da pureza, daquilo que
as pessoas jogam fora, pois acham que não serve para nada.
O poeta e o monge vão pegando esses retalhos e juntando de
forma que fiquem como um campo semeado. Por isso, São Paulo
tem tantas possibilidades. Há tanto lixo, tanta coisa jogada
fora. Coisas que servem, na sua pureza de não serem desejadas,
para que poetas e monges construam suas moradas.
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Coluna
CARNAVAL (E AS MORTES NO ZÔO)
(Por:
Monja Coen)
A
fantasia nos faz. Deixamos de ser filhos, pais, amantes, irmãos
e sobrinhos. Por breves instantes, somos sem-teto, sem-terra. Somos
a escola de samba. Essa realidade nos comove e nos move em passos
cadenciados, peitos inflados, corações acelerados.
Homens
e mulheres nus exibindo músculos e cores. Habilidade de pernas
e macios movimentos de cintura. Sempre tão necessários
os movimentos de cintura. Nesta vida, em qualquer vida, no
trabalho, em casa e nas bocas, quer na fantasia quer na realidade
fantasiosa de cada um de nós.
Outro dia, uma jovem me encontrou
na rua e me contou uma história de desencontros amorosos
e familiares. Fiquei pensando que as versões de seus familiares
e de seu amor talvez fossem diferentes da dela.
Assisti a "Cidade de Deus"
antes de dormir e, ao acordar, revi os personagens na tela da mente.
Eles também se fantasiaram de bandidos. Alguns deles se tornaram
suas fantasias, algumas escolhidas, outras forçadas pela
vida. Alguns eram a fantasia de outros.
Não apenas de roupas,
de armas, de cruzes, de enganos. Fantasias de sonhos, de quimeras,
de esperas.
O que seria da vida sem a fantasia?
Acabaria? Será que tudo não é apenas uma fantasia?
Fantasiados estamos de gente.
No Carnaval, não deveria
haver drogas, bebidas ou brigas. Apenas alegria. Entretanto, a droga
rola, e a bebida enrola a língua e a carne. O corpo humano
é feito de veias, de sangue, de músculos, de órgãos.
Agregados de pedaços físicos e de pensamentos. Sentimentos,
emoções, percepções, consciência.
Causas e condições. Efeitos de sermos corpos e mentes.
Fantasias vivas, que se transformam a cada instante.
Buda ensinou isso há
mais de 2.600 anos. Ele havia trocado a fantasia de príncipe
pela de monge. Trocou as roupas de ouro pelas de algodão.
Trocou o coração, a mente, os gestos, os gostos. Não
foi só a roupa de fora que mudou.
No Carnaval, é permitido
fingir ser o que não se é, mas o que é que
nós somos? Sem se preocupar, há quem vista camisa
listrada e saia por aí. Outros vivem um Carnaval eterno.
Já nem sabem se fingem ou se são.
Há os que viram caçadores
de feras selvagens e matam os nossos animais, nas selvas ou no zoológico,
presos em jaulas fechadas, envenenados. Que fantasia é essa?
Quem os estará "libertando" para a vida eterna?
Oro pelos animais, leões,
gorilas, elefantes e todos os outros. Os que morreram sofreram as
dores da intoxicação. Os vivos estão apavorados
com o cheiro da morte rondando as jaulas fechadas, os espaços
pequenos.
Eu não gosto de estar
presa em um espaço pequeno. Já não preciso
correr, matar ou morrer. Fico comendo e dormindo, sem objetivo.
Que vida danada. Mas matar não é a solução.
Você gostaria de estar em uma jaula, sendo olhado, apontado,
virando um estranho objeto de risos e gritos?
Quando eu era criança,
fui ao zoológico com o meu pai. Era tão lindo ver
todos os animais. Só os conhecia dos livros, dos desenhos,
das telas de terras distantes. Como era bom vê-los em movimento,
sentir o seu cheiro, olhar o seu olhar. Em cada jaula, eu parava
e admirava.
Depois, contaram-me que eles
estavam tristes, aprisionados, que o melhor seria ter safáris
abertos, com áreas maiores para os animais. Poderíamos
visitá-los em carros blindados, todos cercados e bem protegidos
- somos os alimentos favoritos de muitas espécies.
A
gente se esquece. Fantasia de bicho, fantasia de gente. Queria fantasiar
o mundo todo de paz, de respeito e de ternura, até não
poder mais. E, quando o Carnaval terminasse e tudo ficasse quieto,
silencioso, eu juntaria as mãos e agradeceria.
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Coluna
EQUINÓCIO
(Por:
Monja Coen)
O
dia e a noite são iguais. Hoje, 21 de março, o dia
terá a mesma duração da noite. Equinócio.
Muitos povos festejam a data. Há quem acredite que este é
o primeiro dia do ano. Há quem diga que é em dias
como este que a "Terra pura", o "paraíso do
oeste" está mais próximo.
Farei
uma prece especial, por volta do meio-dia, rezando para que todos
os espíritos alcancem a paz. Vivos e mortos. Todos temos
o mesmo direito e a mesma capacidade de alcançar a grande
tranqüilidade.
Por que alguns são bons, e outros, maus? Por que alguns procuram
a paz, e outros, a guerra? Por que alguns são bandidos, e
outros são mocinhos?
Na
tarde em que houve o atentado em Madri, eu não sabia de nada.
Fui ao supermercado, e o meu amigo que sempre me ajuda a levar as
compras até o carro lamentou o que acontecera na Espanha.
O que seria?
Não
quero ser eu, senhora, a lhe dar tão má notícia.
Diga
logo, por favor, o que foi que aconteceu?
Coisa
feia. Terrorismo, morte, horror.
Que
barbaridade! Que pena!
Dizem
que as penas são dos penados e que penar é danado
de ruim. Ficar penando, sofrendo. Sofremos todos.
Milhões
marchando unidos contra a violência, pela paz. Que lindo,
não fossem as mortes, as dores, os horrores.
Precisamos
nos unir, sim. Precisamos reacender a chama da vida como prioridade.
A vida vale mais do que dinheiro, do que juros, do que emendas constitucionais.
A vida vale mais do que a fome que nos mostra as costelas magrinhas
das crianças desnutridas. A vida vale mais do que uma posição
política, religiosa ou filosófica. A vida vale mais.
Proteja a vida. A vida se protege com a própria vida, sem
perder a vida.
As pessoas gostam muito de me perguntar se Jesus era um Buda, Quem
sabe? Não posso misturar as coisas.
Dizem
que Jesus era o filho de Deus. Filho único. Buda é
um ser iluminado, é aquele que acordou, aquele que vê
a realidade como ela é e interfere, age, atua para o bem
de todos. É aquele que renuncia ao seu próprio bem-estar
para salvar os outros.
Mas
não dê a sua vida. Não se atire como bomba sobre
pessoas e casas. Não é isso. Não se mate. Não
matem e não morram por causas. Fiquem vivos.
Que
absurdo matar. Seja lá por qual razão. Planejar ataques
com bombas em lugares públicos é arte do malvado que
nos quer ver brigados. Podemos ser todos amigos, viver no mesmo
local. Mas existem a ganância, a raiva e a ignorância,
três venenos terríveis, que nos deixam abobados. Perdemos
a "Terra pura", perdemos os nossos amigos. O mundo todo
se torna uma guerra de improviso.
Médicos
e policiais resgatando vítimas. Como estariam os seus corações?
Gelados dedos de geladas mãos. E a multidão em passeata
pela paz. Eleições na Espanha, difícil de acreditar.
Há
outra palavra parecida com equinócio: eqüidade. Eqüidade
é diferente de igualdade. É a disposição
de reconhecer igualmente o direito de cada um. É o respeito
igual aos diferentes. Respeito aos que pensam de maneira diferente.
Respeito
aos que se vestem com roupas diferentes, aos que falam idiomas diferentes,
aos que mantêm costumes diferentes. Respeito à diversidade
da vida.
Que
as nossas preces possam ser ouvidas! Que a nossa meditação
possa ser sentida! Que se encontrem soluções pacíficas
para os conflitos! Que haja hoje, neste dia de equinócio,
a eqüidade necessária para levar para o outro lado -
o lado da sabedoria toda a espécie humana e tudo aquilo que
nos mantêm vivos.
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Coluna
OITO
(Por:
Monja Coen)
"Cair
sete vezes, levantar-se oito." Teria sido do monge Bodhidharma
essa frase? Ele, aquele sisudo hindu, alto e forte, antigo mestre
de artes marciais indianas, barbudo, com uma argola de ouro pendurada
na orelha, foi considerado o fundador do zen.
Se
bem que não é possível dizer quem fundou o
zen. É até meio tolo pensar que alguém pudesse
ter fundado o zen.
Ninguém
funda meditação. Zen é meditação.
É um estado da mente humana, da mente e do corpo, do coração
e do espírito, da respiração e dos não-pensamentos.
Pensando, pensando, sem pensar, sem pensar. Além de pensar
e não pensar. Além do corpo e da mente. Pés
no chão. Na terra, mãe que acolhe e repele, aconchega
e fere.
Fui
ao teatro. Uma peça de cinco horas. Nunca havia visto uma
peça de cinco horas antes. No Japão, há peças
que duram dias inteiros. Um teatro diferente.
A
peça é "Os Sete Afluentes do Rio Ota". Sete
afluentes mais o rio Ota são oito. A sala estava lotada e
de pé, aplaudindo no final. Lindo. No intervalo, encontrei
a diretora, que me perguntou: "O que está achando?".
"Lindo", respondi. "Linda é você".
Diálogo zen. Tudo sempre depende de nosso coração.
Pode-se achar beleza até na amargura. Podemos rir até
do horror.
Fiquei
pensando que talvez ela não houvesse gostado de meu lindo
comentário. O que esperar da monja zen? Ou não esperava?
Naquele momento, apenas a espectadora maravilhada com a arte cênica,
os atores, o conteúdo profundo e sutil. Lindo. Pensei comigo
que talvez fosse melhor procurar outra palavra. Seria correto dizer
"lindo" para uma peça de arte educativa como aquela?
Ri e chorei. Percebi a delicadeza das artes tradicionais japonesas
como o teatro noh e a dança buto, o caminho da espada e a
monja zen budista. Bombas atômicas foram três. Claridade
que desfigurou. Por que tanta luz? Vocês querem mais luz?
Reflexão sofrida sobre os erros da humanidade, nossos ancestrais.
Judeus e nazistas. Crianças e artistas. Choveu e fez sol.
Foi noite e dia. O tempo correu, o espelho escondeu o passado no
presente retratado. Sorri, gargalhei, silenciei, chorei. Entendi
e me emocionei. Escola antiga essa da arte dramática. Mostra
caminhos de retorno aos ninhos da verdade, inclusão, amizade,
liberdade.
É
preciso não perder a esperança. Pode demorar. Que
importa o tempo? A esperança exige ação, pensamento,
palavra, criação. Não, nós budistas
não ficamos apenas sentados meditando. Na Ásia, monges
e monjas abrem creches e escolas, hospitais e centros de atendimento.
Trabalham com os pobres, os excluídos. Trabalham com os ricos,
os instruídos. Há todos os tipos de monges, todos
os tipos de ramificações que se possa imaginar. Desde
o mais recluso na montanha, passando por aqueles que jamais tocam
dinheiro, pelos que não tocam nada que alguém tenha
tocado, até os que vivem em templos de ouro, carros importados.
Quem é melhor? Quem é pior? Não ter nada. Absolutamente
nada. Buda ensinou o caminho de oito aspectos: memória correta,
pensamento correto, fala correta, meio de vida correto, ponto de
vista correto, atenção correta, meditação
correta, sabedoria correta. Buda dizia que esse caminho é
o nirvana.
Quase
200 países concordaram, desde o ano 2000, a mostrar resultados
em 15 anos sobre oito objetivos: acabar com a fome e a miséria;
dar educação básica de qualidade para todos;
promover a igualdade entre os sexos e a valorização
da mulher; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde
das gestantes; combater a Aids, a malária e outras doenças;
promover a qualidade de vida e o respeito ao meio ambiente; e trabalhar
pelo desenvolvimento.
O
que temos feito? O que vamos fazer hoje? Qual desses oito caminhos
de Buda, qual desses oito rios vamos navegar?
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Coluna
CONTENTAMENTO
(Por:
Monja Coen)
Há
muitos e muitos anos, o rei de um país distante andava triste.
Um de seus conselheiros sugeriu que ele usasse a camisa de uma pessoa
feliz para se tornar feliz também. A procura começou,
mas parecia difícil encontrar alguém capaz de estar
sempre alegre e contente.
Finalmente,
os emissários reais ouviram falar de um homem simples, que
morava do outro lado da montanha, e foram encontrá-lo. Ficaram
surpresos ao vê-lo, trabalhando sem reclamar, sorrindo ao
recebê-los. Conversaram, e ele concordou em ver o rei.
Na
sala do trono, o rei tristonho aguardava, já sem esperanças.
Talvez não existisse um ser verdadeiramente feliz. Entrevistara
tanta gente. Sempre havia um pedido, uma reclamação,
uma tristeza secreta embutida em alguma prega da memória
ou da ambição. Será que não haveria
na Terra uma criatura que sorrisse sem malícia, que falasse
sem nenhuma intenção?
Os
arautos reais anunciaram a chegada da comitiva. O rei se aprumou
no trono, andava cabisbaixo. Os ministros estavam cansados de convidar
artistas e já tinham trocado mais de 15 "bobos da corte".
De
bobos eram chamados os que deveriam fazer a corte rir. Palhaços.
Geralmente, pessoas muito sábias, cuja intenção
era alegrar e até mesmo aconselhar, de maneira sutil e risonha,
nas decisões finais. Conhecedores dos corações
e das mentes de seus senhores, sabiam segredos íntimos. Entretanto,
suas cabeças sempre dependiam das risadas que tiravam dos
soberanos. Os bobos daquela corte não conseguiam do rei mais
do que um sorriso.
O
rei sentou-se e viu com surpresa o homem entrar. Era grande, truculento
e estava suado. Sorria ao reverenciar o monarca ali assentado. "Aproxime-
se! Você é uma pessoa feliz?", perguntou o rei.
O homem respondeu que sim. "Você veio ao meu castelo,
pode falar comigo. Há alguma coisa que o incomode, alguma
tristeza ou problema, alguma reivindicação, alguma
reclamação, algum ódio do passado, algum rancor
guardado?", continuou o monarca. O homem disse: "Não,
majestade! Respiro a cada instante e isso me basta. É verdade".
"Você
não gostaria de comer coisas raras e deliciosas, banhar-se
em leite, ser acariciado pelas mulheres mais belas do reino? Não
gostaria de possuir terras, casas, gado, plantações?
Não seria bom ter poder de controlar e de matar? Algo falta,
com certeza, diga o que é", insistiu o soberano.
O
homem mais uma vez disse que nada lhe faltava. Seu olhar era límpido
e sereno, parecia verdadeiro. Finalmente, haviam encontrado um homem
feliz.
Conta
essa história antiga, do tempo de minha infância, que
o rei pediu ao homem que entregasse sua camisa. Porém, ele
não possuía uma.
Há
quem pense que alegria, felicidade e contentamento dependem de roupas,
objetos, lugares, conhecimentos. Alguns acreditam que podem encontrá-los
nos cargos, no status. Outros depositam suas esperanças de
felicidade em amores, relacionamentos.
Entretanto,
a capacidade de ficar satisfeito é interna e profunda. É
estar contente pela existência em si. Tudo o que pode acontecer
faz parte de nossa vida. Nada temos a excluir, nada temos a desejar.
Buda,
em seu último sermão, pouco antes de morrer, disse
a seus discípulos que quem conhece a satisfação
penetra a grande sabedoria suprema.
Estar
contente e satisfeito não é apenas ficar rindo à
toa. É uma sensação profunda que vem do encontro
com si mesmo. Sofrimentos e alegrias, dores e prazeres, falta e
abundância, reconhecimento e injustiças, tudo isso
existe em dualidade.
Ao
encontrar a unidade, o sábio sente piedade por quem ainda
se encontra fragmentado e partido, triste e desenxabido.
Revista da Hora
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Coluna
MULHERES NO BUDISMO
(Por:
Monja Coen)
"Qual
é a dificuldade em ser mulher quando a mente está
concentrada e a compreensão é clara e brilhante?".
Essa frase é de Soma, uma das discípulas de Buda.
No
princípio, Xaquiamuni Buda se recusou a atender o pedido
de Mahaprajapati e das 500 mulheres que a seguiam. Ele dizia que
as mulheres não poderiam abandonar suas famílias para
seguir a vida de mendicantes, como os monges faziam. Elas não
desistiram. Cansadas, sujas, maltrapilhas, com os pés sangrando,
elas o seguiram e imploraram para serem aceitas. Finalmente, Ananda,
assistente de Buda, intercedeu por elas.
-
Senhor, se todos os seres pedem obter o mesmo estado de Buda, por
que não ordenar as mulheres?
Xaquiamuni
Buda cedeu. Afinal, Mahaprajapati era sua tia, irmã de sua
falecida mãe. Ela o criara como filho. Não tomou a
decisão só por essa intimidade, mas pela coerência
de seu próprio ensinamento: "Todos os seres, sem exceção,
são capazes de obter a mais elevada iluminação,
a sabedoria e a compaixão superiores. Basta que pratiquem
o caminho de Buda".
Assim,
desde o início do budismo, as mulheres puderam entrar na
ordem monástica. Embora houvesse algumas regras especiais,
hoje consideradas decorrentes da posição das mulheres
nas sociedades antigas, elas foram respeitadas como verdadeiras
praticantes do caminho. Isso aconteceu na Índia, há
cerca de 2.600 anos.
Atualmente,
as monjas, no Japão, podem realizar casamentos, enterros
e ordenações, da mesma maneira que os homens. Há,
entretanto, algumas ordens em países do sul da Ásia
nas quais a posição das mulheres ainda não
é de igualdade.
Somos
todos diferentes, com certeza. Homens e mulheres. Homens e homens.
Mulheres e mulheres. Crianças, adolescentes e idosos. Homossexuais,
heterossexuais e bissexuais. Não há duas impressões
digitais iguais. Não há dois seres iguais. Mas todos
devem ser igualmente respeitados como manifestações
da vida no universo.
O
legado das primeiras mulheres budistas é o de que qualquer
pessoa pode e deve ser a sua própria luz. Isso significa
questionar todos os níveis de materialismo, consumismo e
agressões violentas.
Cada
um de nós pode atingir a compreensão superior e brilhante,
a verdade mais elevada. Podemos ser uma clara e límpida manifestação
dessa verdade, mantendo a coerência em nossos atos, em nossas
palavras e em nossos pensamentos. Essa compreensão nos leva
ao "interser", à percepção da teia
de relacionamentos de que é feita a própria vida,
e, assim, leva-nos também a respeitar a vida em suas diversas
formas.
Podemos
transformar o mundo. Não pela violência ou pelas guerras,
mas por meio da não-violência ativa, do diálogo,
da compreensão. Podemos transformar por meio do feminino
em cada ser, do cuidado amoroso e terno.
Também
no budismo, a história das mulheres é fragmentada.
Foi, como toda a história da humanidade, escrita e recontada
por homens, sob um prisma de guerras e conquistas. Mesmo assim,
podemos reconstituir a importância que muitas mulheres tiveram
ao participarem de grandes transformações sociais,
políticas e econômicas, sem violência.
A
história da humanidade não foi apenas de violência.
Muito mais do que se escreveu foi vivido. Muitos conflitos foram
resolvidos de forma diplomática. Assim é a história
das mulheres. Quantas ficaram anônimas e esquecidas nos anais
masculinos?
O
que se reverencia no budismo não é o gênero,
masculino ou feminino, mas a mente iluminada, anterior às
discriminações, capaz de incluir todos os seres na
grande ternura da acolhida suprema.
Fonte:
Revista da Hora, 7 de março de 2004
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Coluna
VIDA E MORTE
(Por:
Monja Coen)
Vida
após a morte? Morte após a vida? Vida em vida? Morte
em morte? Morte na vida? Vida na morte? Morte na morte? Vida na
vida? O que veio primeiro, a morte ou a vida? Estaria tudo morto
quando a vida iniciou o seu processo inusitado de dar vida à
morte? Ou estaria tudo vivo quando a morte iniciou o seu processo
inusitado de matar a vida? É a vida dando vida à vida?
É a morte matando a morte? É a vida dando vida à
morte? É a morte dando vida à vida?
Dizem
os budas que não há nascer nem morrer. Então,
como explicar o choro do bebê. Nasceu, não foi? E como
falar do morto no caixão, sendo velado. Morreu, não
foi?
Há
quem adore falar com os mortos. É tão legal falar
com os vivos. Não é preciso esperar que morram para
ouvi-los, para falar, para pedir perdão, para querer aprender,
para doar. Há seres maravilhosos hoje, agora, ao seu lado,
em você. Pare e olhe para eles. Encontre e ouça a sua
voz mais doce e verdadeira. É preciso encontrar, neste plano,
neste instante, em cada ser, a graça do "interser".
É preciso cultivar a beleza, a pureza, a bondade e as virtudes
e fazer uma teia preciosa de seres iluminados, brilhando para todos
os lados.
Não
há tempo a perder e, ao mesmo tempo, temos toda a eternidade.
O tempo não está correndo. Corremos junto com o tempo.
Giramos com a Terra, que gira em tomo do Sol... Somos o tempo. Um
momento.
Para
onde foi o momento que eu pedi para esperar? Ele não esperou.
Nada espera. Tudo flui. Fluímos com o tempo. Vivendo e morrendo
a cada instante. Células que nascem e morrem. Quem quer ser
eterno?
Vou
mudando, crescendo, envelhecendo. A barriga cresce, depois murcha.
Já não consigo andar tanto. Fico cansada por qualquer
coisinha. Esqueço as coisas, esqueço as pessoas. Quando
me perguntam do passado, tenho de puxar memórias que nem
sei onde foram arquivadas. Surge um rosto, uma face, uma voz: "Você
se lembra de mim?". Lembro? Não sei.
Eternamente
vivendo cada morte instantânea de mim mesma. Presente. Presente
de ser e de estar. Presente de receber e de dar.
Professora!
Posso ir ao banheiro? Não. Pipi no chão. Vá
buscar um pano e limpar. E a minha roupa molhada? E as minhas pernas,
as minhas meias, o meu sapato? Eu pedi para ir ao banheiro. Claro
que não deu tempo no recreio. Intervalo é para brincar,
jogar bola. Não dá tempo de ir ao banheiro. Por que
a professora não entende? Nunca foi criança, talvez?
Já nasceu assim grande, professora?
Professora
pode rasgar papel de aluno? Mesmo um papelzinho de recado, de desenho,
de ternura, de amizade? Pode?
Direitos
humanos. Quem avançou o sinal? Quem desrespeitou primeiro?
Ele estava batendo no meu amigo. Fui lá e o enforquei. Ele
me deu dois murros. Todos para a diretoria. Quando a gente cresce,
não é para a diretoria da escola que a gente vai.
Quando a gente cresce, não é a professora que rasga
nossos papéis de recados queridos.
E
o que fazer? Vamos vivendo... Não assim, respondendo como
se fosse uma coisa corriqueira. Vivendo. Que alegria, a vida.
Com
seus altos e baixos, suas memórias. Ah! Até essas
podem ser roubadas.
E
daí? Sem lastimar, vamos nos transformando. Sem indiferença
e sem negligência.
O
corpo de agora é onde tudo se manifesta. Cuide dele com carinho
e respeito. Não deixe ficar balofo, doente, estressado. Cuide
com o cuidado de quem só tem um. Não dá para
trocar na loja. Remendos são caros e complicados. Vamos cuidar
de nossa vida. A morte nos espreita, aguarda-nos. Não sinistra
e temerosa. Mas nos leva sorrateira a uma viagem amorosa pelo passado
e pelo futuro. Fale comigo agora. Hoje. Amanhã pode não
vir. Cuide, inclua, compreenda, ajude, transforme. Já. Não
há outro dia.
Fonte:
Revista da Hora, 25 de abril de 2004
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Coluna
MEDO
(Por:
Monja Coen)
Estamos
todos com medo. Medo de morrer. Medo de viver. Estamos todos amedrontados.
Janelas fechadas para a percepção. Travadas as portas
do coração. Inimigos entre os filhos e os amigos.
Em quem podemos confiar?
Por
entre grades, separamo-nos de amigos, familiares, vizinhos e desconhecidos.
Desconhecemos nós mesmos. Somos estranhos. Somos prisioneiros
do medo, da insegurança.
O
policial, também amedrontado, tira a farda e esconde a arma.
É difícil saber se quem coloca a mão no bolso
de um casaco vai ou não sacar um revólver.
O
sujeito só ia tirar os documentos, mas morreu. Policial não
vacila, luta pela vida. E também vive de não ser compreendido.
Seria
tão lindo viver sem lutar, sem precisar de batalhas e armas.
Lembro-me
dos jovens norte-americanos comentando sobre a Guerra do Vietnã.
Se não se alistavam, eram vistos como traidores da pátria.
Seus pais perdiam os amigos, os empregos, os contatos. Não
eram eles apenas que sofriam.
Os
que se alistavam eram vistos pelos outros como mercenários
assassinos. Suas famílias eram execradas. Não podiam
nem ir nem ficar. Os que foram e não voltaram se tomaram
heróis em uma pedra. Os que voltaram pensando receber honrarias,
glórias e medalhas encontraram portas fechadas, caras amarradas,
gritos reclamando de sua violência, da sobrevivência.
Não eram heróis. Corpos mutilados, mentes perdidas
nas drogas da morte, na droga da vida. Desempregados, encheram cadeias
e foram esquecidos.
Onde
estavam os filhos das elites? Estavam em combates? Alguns sim, outros
não.
O
medo tem cheiro. Nas valas escuras, sentia-se o medo permeando a
noite.
O
medo precisa ser cuidado para não causar mais medo. Em nós
mesmos e nos outros. O medo existe. Grande, pequeno. Há medo
médio. Medo que vem e que vai. Medo de ter e de não
ter. De ser e de não ser. Há medo de sentir medo.
Para
onde foi a segurança, a alegria de poder pensar que minha
netinha vai ter a oportunidade de crescer feliz?
Nas
manchetes de corpos calcinados, crianças levantam os braços
em fúria. Crianças e adolescentes, sorrindo da morte,
considerando-se heróis.
Heróis
de quadrinhos, de filmes de mocinho. O passado já era.
Sem
heróis e sem guerras. Quero um mundo de harmonia, de compartilhamento.
Quero você sorrindo ao meu lado para contemplarmos, rezarmos
e agradecermos.
É
preciso estar atento. Verificar se tudo não passa de mera
ilusão. Será que o bom, que quer ajudar, não
tem outra intenção escondida? Desconfiança,
medo, vingança.
Por
dentre os escombros de escândalos pré-fabricados, procuro
a esperança de um povo magoado que vem sendo pisoteado por
aqueles que criam o medo e a divisão.
Girando
a roda do darma, Buda falava: "Nada faltando, nada sobrando".
Alguém
poderia me informar para que lado foi a amizade? Onde está
a nossa capacidade de trabalhar sem a intenção de
ganhar melhores salários ou uma promoção?
Não
somos capazes de trabalhar sem a intenção de sermos
premiados, apenas fazendo o bem, escutando o som do silêncio
no carro parado?
Será
que alguém pode me informar quem está querendo fazer
fracassar a alegria de poder mudar sem violência, sem guerras,
sem traições, sem inveja, sem nenhum tipo de indecência?
Procura-se
o não-medo de ser verdadeiramente, "intersendo".
Fonte:
Revista da Hora, 11 de Abril de 2004
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Coluna
O RETIRO E A VERDADE
(Por:
Monja Coen)
Acordávamos
antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nos sentávamos
em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos
o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos
os dias. De meditação em meditação,
silêncio e orações. Plena atenção
aos gestos, passos, olhos baixos. Havia dor. A dor do corpo não
acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor
da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.
Havia
a dúvida. Havia o medo de perder a razão. Como se
perde a razão? Primeiro, seria de bom senso encontrá-la.
O que é a razão? Eu tenho razão? Ele tem razão?
Estaria ela com a razão? Que arrazoado é esse?
Em
um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: "Não
há religião superior à verdade". Era o
que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre
nós mesmos. Será que nos enganamos, nos iludimos e
logo nos desiludimos? Será que esquecemos a verdade em um
baú trancado em um sótão antigo, cujas escadas
rangem e nos assustam a cada passo? Mas ela deveria ser clara e
luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva,
o rancor. Por que nos apavora tanto encontrar o que mais procuramos?
Por que evitamos e nos escondemos, como se fosse possível
a verdade se esconder da verdade? Afinal, não somos todos
verdadeiros? De tempos em tempos, eu lia textos medievais, do século
13. Eram textos modernos, atuais, até futuristas. Um deles
dizia que o universo é uma jóia arredondada e que
não há nada fora dele.
É
impossível jogar qualquer coisa fora, pois o fora não
existe. Tudo está incluído e se transformando a cada
instante.
Esperando
o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração,
eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece
tão simples e é tão difícil. Poucos
conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos.
Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música,
teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser
amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.
Outro
dia, alguém me disse que ciúme e inveja são
diferentes. O arrazoado era assim: o ciumento é egoísta,
mas ama e protege. O invejoso quer destruir, não quer que
exista, quer ser o outro e faz qualquer coisa para apagar o invejado
da cena. Perigoso.
Perceba
suas emoções, seus pensamentos, sensações.
Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam
muito. Responsabilidade. Escolha.
À
noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque
do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática
foi declamado: "Vida e morte são de suprema importância.
O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um
de nós deve se esforçar para acordar, para despertar.
Não desperdice a sua vida".
Saíamos
da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros, nada. Mas
a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está
sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria,
nada entendemos. "Somos a vida do Universo em constante transformação",
outra fase medieval. Como é que eles sabiam? Hoje nós
sabemos, falamos em Geia, a Terra viva e palpitante, árvores
e metais, fogo e ar, seres vivos, plantas.
Quem
sou eu? Quem é você? Sou o nada, sou o tudo, sou o
todo. Sou a Terra e o Universo em expansão. Sou a borboleta
e o orvalho. Sou o silêncio e o turbilhão da mente.
Pelas ruelas vazias caminhávamos em fila indiana, sentindo
a brisa, as cores, os odores, as texturas dos ventos, as luzes e
as sombras. Nós fazíamos parte do todo. O retiro acabou
e nos despedimos. Cada um de nós levou aquilo que pôde
apanhar ou o que soube largar. (Homenagem à Semana da Iluminação
de Buda)
Fonte:
Revista da Hora, 14 de dezembro de 2003
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Coluna
ANO NOVO
(Por:
Monja Coen)
Ela
era a irmã do ano e jamais envelhecia. Parada no tempo e
no espaço, a tudo assistia. Revestida de estrelas, as camadas
mais profundas do universo percorria. Em cometas viajava, em estrelas
se esquentava, nos buracos negros se banhava e dormia na Via Láctea.
Ela não tinha nome. Fazia e refazia a vida. Era a irmã
do ano, que era sempre o mesmo, embora as pessoas na Terra dissessem
que novo e velho havia. Para ela, ele era o eterno presente. O que
você ganhou de presente? Eu ganhei a vida. Renascida, revivida
em cada inspiração.
Não
medito para me acalmar ou para ficar mais tranquila. Zazen é
sentar em zen. Zazen é encontrar Deus face a face e se perder
nessa face. É a salvação e a glória.
É a libertação e a paz. Requer esforço,
paciência. Requer confiança e coragem. Requer entrega,
doação. Requer morrer para o velho modo de ser. Requer
renascer na iluminação.
Em
uma certa tarde, eu a encontrei. Espreguiçava suas asas em
nuvens brancas e suaves. Abria o seu olho sol e o seu olho lua.
Sorria nos raios de sol e no brilho das folhas verdes. Bela e poderosa,
caminhava solene e, ao mesmo tempo, airosa.
Parei
por um momento no portão de uma casa. Uma senhora idosa se
lamentava. Saudades do companheiro, amado marido morto, que deixara
um vazio imenso. Ele foi bom e sábio. A vida daquele homem
fizera a vida de sua mulher ter sentido. Havia função
estabelecida, havia identidade, hábitos antigos de mais de
60 anos juntos. A senhora chorava. Meu coração se
compadeceu. Como salvá-la da dor em todo o seu corpo, das
pernas inchadas, do cansaço sem fim, da vontade de nada?
Como ajudá-la a se libertar da tristeza profunda que, como
fogo, queimava de lágrimas o seu peito magro e o seu rosto?
Lembrei-me
de Buda, que, por causa de alguém como ela, de alguém
assim, que idoso e sofria, deixou suas roupas de luxo, suas comidas
especiais e sua família e saiu à procura da verdadeira
paz.
Continuei pensando nela. Na sua dor, no seu amor. Se a mente entendia
as razões da vida, o coração tremia pela falta
do olhar, do gesto, da voz, do corpo e da energia.
Sofrimento
existe. Por toda a parte. Como aliviar, salvar, redimir? Seria apenas
um carma sofrer assim? Se aí nos detivermos, estaremos fechando
todas as portas da transformação. E as coisas não
param.
Tudo
ligado, causas, efeitos e condição. Mas há
o nirvana, estado tranquilo de grande paz sábia e perfeita.
A cada instante uma nova vida se manifesta. Mas ela dizia que só
o que sentia era dor. No corpo, na alma. Na dor arraigada, nenhuma
palavra vinda de outras pessoas servia.
Deitava
e chorava, já não mais sorria. O ano passou. Outro
ano chegou. Será diferente? Continuará igual? Tudo
dependerá de quem compreender a verdade suprema.
Minha
prece ofereço a todos os que sofrem. Que a minha vida sirva
para criar condições apropriadas para tudo se transformar.
Que as pessoas percebam que juntos podemos ajudar uns aos outros.
O
Ano Novo se vestiu de fraldas brancas. Seria Gandhi, o Mahatma,
renascendo pela paz? A irmã o viu saindo daquele lugar de
onde ninguém entra e ninguém sai. Sorriu. A Terra
sentiu um frio arrepio de um lado. De outro, um calor de suar. O
ano girava, crescia, mutava e, com ele, toda a vida em todo lugar.
Assim
vamos nós, girando ao redor do Sol, girando ao redor do nosso
próprio eixo, numa elipse, acendendo a chama de nunca mais
fazer nenhum mal.
Que
o bem prevaleça na Terra! Feliz Ano Novo!
Fonte:
Revista da Hora, 28 de dezembro de 2003
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Textos
Otávio Leal :: Colunistas

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