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Mente vazia
mente tranqüila
Monja Coen
Alguns
dizem que é preciso esvaziar a mente. Eu pergunto: como esvaziar
o que já está vazio?
Há uma história
Zen muito interessante. Certo dia um jovem aspirante pediu ao Mestre Zen
que aquietasse sua mente. O Mestre
disse:
—“Traga
sua mente aqui, entregue-a a mim e eu a aquietarei.”
O jovem saiu procurando
pela mente. Onde estaria? Seria pensamentos, memórias? Seria silëncios
e quietude? Seria sonhos e pesadelos? Seria feita de palavras, conceitos?
Seria apenas a massa encefálica, a matéria? O jovem pensava
e não pensava. Cada vez que acreditava ter apanhado a mente, percebia
que ela fugia, que já estava em outro pensamento, em outra
idéia. Que o próprio conceito se desfazia. Cansado, voltou
a procurar o Mestre e disse:
—“Senhor,
é impossível apanhar a mente.”
O Mestre disse com
alegria:
—“Pois
então, já está aquietada.”
O jovem se reverenciou
em profunda gratidão, pois pela primeira vez compreendia, que a
mente não é algo fixo e constante, mas flui com o fluir
da vida, sem que possa jamais se fixar quer em inquietude ou em silêncio,
quer em alegria ou tisteza, quer em iluminação ou delusão.
Outra história
do século VII na China foi a seguinte: o abade de um grande mosteiro
pediu a seus monges que fizessem um poema no qual expressassem sua compreensão
dos ensinamentos de Buda. O Chefe dos Monges, muito querido e respeitado
pelos seus mais de mil companheiros, escreveu solenemente:
“O corpo é
a árvore Bodhi*,
A mente é
como um espelho brilhante
Cuide para mante-la
sempre limpa
Não permitindo
que o pó se assente”
Um jovem semi-alfabetizado,
que ajudava separando a palha do arroz viu o poema na parede, pediu que
alguém o lessse e exclamou:
—“Não
é isso”
e pediu a um monge letrado que escrevesse seu poema:
“O corpo não
é a árvore Bodhi
A mente não
é como um espelho brilhante
Se não há
nada desde o princípio
Onde o pó
se assenta?”
Este segundo poema
reflete a essência dos ensinamentos do Sexto Ancestral da China,
o Venerável Mestre Hui-neng e do Zen.
A prática
da meditação do Zazen não é para polir o espírito,
não é para limpar a mente, não é para esvaziar
nada. É tornar-se uno com nosssa essência verdadeira, com
aquele Eu imenso que contem todos os sentimentos, emoções,
percepções, formações mentais, consciência
e a forma física.
Retornar à
verdade e ao caminho é retornar à vida. Assim falamos em
renascer. Deixar morrer idéias abstratas e fantasiosas sobre estar
separado do tudo e dos outros e perceber a sabedoria suprema presente
em todos os seres, vivenciá-la, tornar-se uno com todos os Budas
e Ancestrais do Darma.
Basta perceber que
nada é fixo, nada permanente – isto é o vazio. A mente
vazia é aberta e flexível. Chora e ri. Pensa e não
pensa. Não precisa ser esvaziada – já é vazia.
Sendo vazia é clara e iluminada, em constante atividade e transformação.
Apenas escolha com o que alimentá-la. Você mesma(o) é
o programa e o programador, o computador e seus acessórios. Cuide-se
bem.
Mãos em prece
* (Bodhi –
do Sânscrito iluminação)
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Transcrevo um texto
de Mestre Doshin (580-651) considerado o Quarto Ancestral da China
“Todos os ensinamentos
de Buda estão centrados na Mente, de onde incomensuráveis
tesouros surgem. Todas as faculdades sobrenaturais e suas transformações
reveladas na disciplina, meditação e sabedoria são
suficientemente contidas em sua própria mente e nunca saem dela.
Todos os obstáculos em obter-se bodhi surgem das paixões
que geram carma e são originalmente não-existentes. Cada
causa e cada efeito é apenas um sonho. Não há mundo
triplo a abanonar nem bodhi a ser procurado. A realidade interna e a aparência
externa do ser humano e das mil coisas são idênticas. O Grande
Caminho é ilimitado e transcende a forma. Livre de pensamento e
de ansiedade. Agora você entendeu o ensinamento de Buda. Não
há nada faltando em você e você não é
diferente de Buda. Não há outra maneira de obter o estado
de Buda além de permitir sua mente ser livre em si mesma. Não
contemple nem tente purificar sua mente. Deixe que não haja apego
nem aversão, ansiedade nem medo. Esteja completamente aberta e
absolutamente livre de todas as condições. Esteja livre
para ir em qualquer direção que queira. Não aja para
fazer o bem, nem procure o mal. Quer ande ou fique, sente ou deite, e
seja o que for que aconteça a você, tudo são as maravilhosas
atividades do Grande Iluminado. Tudo é alegria, livre de ansiedade
– isto é chamado Buda.”
É preciso
entender que estamos falando do ponto de vista do absoluto, de quem percebeu
e se tornou o próprio corpo de Buda, que são em si os Preceitos,
a Disciplina, a Meditaçao e a Sabedoria. Alguns podem interpretar
erroneamente que fazer qualquer coisa é ação iluminada.
Só se é Buda quando há a verdadeira compreensão
do Caminho, que é tornar-se o Caminho de Sabedoria e Compaixão.
Não é
ser bonzinho, nem querer ser mau. É tornar-se o próprio
Bem.
Mente vazia e livre,
clara e ativa em tranqüilidade, tranqüila em atividade.
Possam todos os seres
se beneficiar
Fonte: www.monjacoen.com.br
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