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Maratona
Monja Coen

Corra, pise leve, vamos. Quando chegar ao muro, atravesse, não
pare, olhe o tempo, o seu tempo, corra, pise leve, beba água. Está
tudo bem com você? Não desista, vamos lá. A maratona.
Quarenta e dois quilômetros. Para correr maratonas é preciso
treinar, praticar, se preparar física e mentalmente.
Em Paris, no domingo passado, 35 mil pessoas participaram da 29ª
Maratona. Estava frio. Conforme corriam, as roupas iam sendo jogadas no
chão. Garrafas de água, agasalhos. O corpo esquenta. Maratona
é caixa de surpresa. Ninguém sabe o que acontecerá.
Será que sabemos na vida?
De dois em dois quilômetros havia banda de música, entusiasmando
os atletas e as atletas. Como será a maratona em São Paulo,
neste domingo? Haverá bandas suficientes para as pessoas se sentirem
incentivadas a correr e a pisar leve, a chegar e ultrapassar seus próprios
limites?
É bom conhecer os nossos limites. Para não nos ferirmos
nem ferirmos aos outros. Mas, ao mesmo tempo, temos de atravessar o muro,
o ponto da ruptura entre o possível e o sonho. Por volta dos 30
km tudo muda, tudo silencia. Até o som dos passos é diferente.
Muitos ficam nessa zona. Alguns passam como se nada houvesse. Outros se
arrastam e, na garra, atravessam o muro.
Muro invisível. É aqui que a maratona se resolve. Parece
que todo o preparo era para esse momento. Maratona é vida. A cada
instante, uma novidade. Não pode deixar cair no marasmo. Não
pode deixar ficar automático. Energia vital, mente alerta.
E quando a menina que corre maratonas me conta pedaços, fico juntando
esses retalhos e pensando que assim é a nossa vida.
Há trechos com começo e fim, mas são sempre outros
começos e outros fins. Treinamos vivendo e vamos correndo. Encontramos
apoio, água, energéticos, aplausos, música, encorajamentos.
Encontramos cansaços, tristezas, dores, bolhas, férias,
enjôos. O corpo pede para parar, mas a mente é forte. O que
faria desistir se trans¬forma em energia para conseguir.
É preciso passar os limites que nos impomos. Quebrar a barreira
do impossível sem quebrar o mecanismo que nos permite atravessar.
Para alguns é fácil, para outros, é difícil.
Para todos, é trabalho constante, paciência, persistência.
Treino bem organizado, planilhas, esforço e descanso.
Eu pensava que as pessoas corriam para ganhar. E fiquei sabendo que tem
gente que corre para se divertir, aprender viajar.
E também há os que vão para ganhar o primeiro lugar.
Arriscando tudo, colocando a sua vida em cada passo. Cada segundo perdido
é a tristeza sentida ao terminar. Traçam planos e metas,
mas são atletas. Têm espírito esportivo. Isso significa
que não importa ganhar ou perder. O importante é percorrer
os 42 km e perceber o que o treino todo permitiu, o que a mente agüentou.
O muro me fascina. Pensar que nos 10 km finais tudo se transforma. Nos
nossos retiros de meditação é assim. Começamos
reclamando, a mente fala com a gente, o corpo grita irritado. Mas vamos
sentando cada instante, inspirando, expirando. A coisa vai apertando,
a resistência na corda-bamba. Há quem desista e se vá,
há quem force e se fira, há quem atravesse e se assombre
ao encontrar a essência da vida. Quando nos entregamos à
dor e persistimos é como se uma engrenagem no peito mudasse de
posição.
Aonde estamos todos indo? Onde vamos chegar? Qual a meta dessa maratona
de correr e de andar? Alguns correm outros andam, alguns ultrapassam suas
metas outros não as conseguem alcançar. Alguns param, outros
correm sem parar.
Que possamos todos juntos nos motivar ao percorrer o caminho. Vamos chegando,
chegando e recebendo o abrigo que nos faz rir e chorar.
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