Malu - Monja Coen

      As pessoas me chamam de Malu, e eu respondo. Sou preta, mas não retinta. Deve ter havido mistura na ancestralidade. Sou pequena e meus olhos são cor de mel. Gosto de frutas, bolos e bolachas, além das comidas.
      Quando chega alguém, eu corro até a porta para receber ou mandar embora.
      Tenho ido de manhã a um templo zen. Lá, as pessoas entram quietinhas, tiram os sapatos e se sentam de face para a parede. Não é castigo. Elas gostam de ficar assim.
      Os raios de sol entram pela janela da frente. Eu fico sentada também. Não voltada para a parede, mas me sento ora aqui ora acolá. Zazen. Isso é sentar em silêncio.
      Há um sino suave, e todos ficam cerca de meia hora sentados, com as costas bem retas, respirando em plena atenção. Então, tocam um enorme tambor. A primeira vez que ouvi o tambor acordei assustada (eu havia adormecido na sala, mas as pessoas não podem dormir. Elas se sentam para acordar).
      O tambor toca para marcar a hora. Se são 7h, são sete toques de tambor. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum. Tum.       Um sininho marca cada 15 minutos. Tlin, tlin, tlin.
      As pessoas falam: "Vasto é o manto da libertação. Sem forma é o campo de benefícios. Uso os ensinamentos do Tatagata para salvar todos os seres".
      Pensei que estavam chamando uma gatinha. Tata gata. Mas não. Tatagata é um epíteto de Buda, uma das qualidades de Buda, o ser iluminado. Significa “aquela pessoa que vem e vai do assim como é”.
      As coisas são como são, a realidade é como é. Parece que as pessoas estão quase sempre pensando, querendo, julgando, reclamando, condenando, absolvendo, desejando, rejeitando e, às vezes, correndo tanto que nem vêem o que está claro. O que é, é.
      Não é que nós, cães, sejamos muito diferentes. Você já entendeu que sou uma cadelinha sem raça definida, encontrada na rua?
      Haviam me maltratado, e uma moça me acolheu. Ela agora é minha e, como eu gosto dela, vou junto onde quer que ela me leve. Ela gosta de ir a esse templo. Foi ela quem me chamou de Malu pela primeira vez. Ela não bate em mim. Ela me ensina o que posso e não posso fazer, e eu entendo sua voz. Quando aprova o que estou fazendo, abano meu rabinho de um jeito. Quando desaprova, encolho-me e abano de outro jeito.
      Todos deveriam tratar seus bichinhos assim. Nada de deixá-los amarrados em correntes, sem carinho e sem conversas. Nada de pauladas, gritos, empurrões e tapas. Nada de deixá-los passando fome, sem água.
      Água é um direito de todos. É direito sim. Água tem de ser limpinha, cuidada e distribuída a todas as pessoas e também aos animais. Já pensaram um gato, um cachorro ou um cavalo entrando em uma loja para comprar água? Já pensaram nas pessoas pobres?
      Voltando à reza do manto da gata, que não é manto de gata, mas manto de Buda. Isso quer dizer o seguinte: o manto de Buda é imenso e liberta. Parece aquele manto do Harry Potter que torna invisível, mas é melhor, porque torna livre. Liberta de tudo que atrapalha. Salva de todos os males.
      Um campo sem forma de benefícios. Um campo imenso, sem forma fixa. Espalha-se por todos os lugares, visíveis e invisíveis.
      O que se passa na mente é real. Quando alguém diz: "Isso é invenção da sua cabeça", essa invenção é tão verdadeira quanto esta revista. Dá para entender? Sem a mente, o que existe? Nem gato nem cachorro.
Uso os ensinamentos do Tatagata, de Buda, que vê a realidade assim como é. Para isso, é preciso ter a mente luminosa. Para isso, faz-se zazen, sentar de face para a parede.
      Usar os ensinamentos é se tornar os ensinamentos, de forma que cada gesto, palavra e pensamento sejam bons. Todos os seres incluem gatinhos, cachorrinhos, passarinhos, árvores, metais, pedras, ar puro, terra e água limpa. Inclui a mim, Malu. Au, au, au.