Estivemos
ali. Em meio ao calor de Porto, Alegre Verão,
o mais ao sul, surpreendentemente o mais quente do
Brasil (não estaríamos no Piauí,
no Amapá, em Natal? Na Índia? Na Ásia?
Na África?).
Cada momento é único.
Único para encontrarmos
o espírito necessário do deslumbramento.
Nos formando, nos transformando, tirando orelhas de
Chacal e colocando orelhas de Girafa, pra podermos
escutar as necessidades da raiva, da ganância,
da ignorância, as carências e os afetos
de outros, nós mesmos. Para descobrirmos nossa
fala não-violenta. Quando olhamos além
de nossos olhos sem defeito, quando usamos também
olhos de catarata, junto a milhares de outros olhos,
pode ser que neste mesmo momento único também
sejamos um corpo com milhares de braços. Sorte
nossa (antes de irmos ao Fórum, ganhei um real
na Loteria, Sensei!) sendo assim!
Escutamos, com David Adams
da UNESCO, não a celebração do
fim de um Império que não existe, mas
a necessidade de construção de uma cultura
de paz. Em tempo. Em espaço. Malu aplaudia
conosco.
Houve um momento em que fiquei
em meio à multidão, me perdi de tudo
e de todos. Era o final da caminhada de abertura,
onde as mais diversas bandeiras de movimentos sociais
se encontravam (cada passo, único, nos trazia
para mais perto ou longe de um ou outro grupo). Carregamos
uma bandeira arco-íris, uma bandeira verde-amarela,
uma bandeira de mulheres, uma bandeira pela terra,
uma bandeira pelo mundo. Para que todos se manifestem.
Para que o todo se manifeste.
Já era noite. Alguém
no palco do Anfiteatro Pôr-do-Sol nos convocou
a acender nossas luzes e que ali fizéssemos
um minuto de silêncio. Por aqueles que sofrem?
Pelas vítimas do Tsunami? Eu só carregava
incenso e estava só, perdida até que
a multidão também se tornasse parte
em mim. E isto aconteceu quando pedi uma luz pra acender
brasa perfumada e rescendente, fragrante. Pois naquele
momento uma amiga me encontrou. Normélia, colona
Italiana, professora de literatura francesa. Estava
com o namorado Haitiano. Ela me disse que havia perdido
a mãe dias antes. Ofereci incenso. Pedi algo
que nem sei o que foi a Kannon, algo que estava e
restou naquela morte, naquele encontro. O céu
estava estrelado. Conversamos um pouco. Fui embora.
Guardei as palavras da amiga:
aquele fórum era o mais místico de todos,
para ela, que estivera no primeiro...o mais além
do absolutamente racional, um fórum em que
tudo parecia estar acontecendo em novos planos de
consciência. E com os mais místicos,
vamos agora nos lembrar de uma nuvem-pássaro-anjo
que se formou no céu de um entardecer em que
me encontrei com Paulo, um líder espiritualista
do grupo Interreligioso de São Paulo, e com
Elias, reverendo presbiteriano; depois de uma palestra
dupla...era uma tarde se preparando para o som de
tambores xamânicos, uma tarde que aconteceu
em meio ao maravilhoso mahamantra entoado por hare-krishnas
de todo o Brasil, uma tarde em que encontrávamos
freiras católicas por todos os lados. Um entardecer
que se seguiu a uma tensão interna muito grande
(Você melhorou, Martha?). Um momento que me
fez lembrar o arco-íris circular do Fórum
de 2003, o arco-íris que se manifestou formando
um círculo no céu, acima do globo de
plástico pintado de azul. Nossa terra, nossa
casa. Em 2005, o momento em que pegava no colo um
bebê e via em seus olhos compreensão
profunda.
Ela perdera a mãe.
O namorado viera visitá-la. O tempo passa rapidamente.
Nina já cresceu. E onde estamos agora? No ônibus
de ida, cheio de jovens animados e cheios de idéias?
No ônibus ou no avião. De ida ou de volta.
A mãe. A filha. A
neta. Fábia e Rafaela foram para a casa da
amiga Janja, Fábia ficou um pouco com a gente,
no apartamento da Dona Maria Luíza, onde a
Zena nos recebeu com atenção. Disse
que tinha gostado muito de mim. É bom ser querida.
Os jovens (alguns tão
jovens) em busca de... Ali, neo-hippies, tribos múltiplas,
xamãs, índios, círculos interreligiosos
compartilhando (comungar seria por demais cristão?)
o movimento da vida, as experiências de cada
um, os círculos possíveis. O interser.
Nos fixamos no campo das espiritualidades, da ética,
da fé. Do que é totalmente universal
e absolutamente particular. Passeamos brevemente pelo
acampamento da Juventude, pelos outros espaços.
Vimos o maior skatista do mundo! Não vimos
as palestras hors-concours do presidente Chávez,
do presidente Lula, de José Saramago. Eram
filas imensas! Mas tivemos notícias.
Fizemos encontros. Sensei
queria experimentar os círculos, a proposta
de Eve Marko, a iluminação do círculo
(Eu e todos os seres...). Então em quase todas
as palestras fizemos círculos em que cada um
se apresentava, propunha, se colocava (que o coração
se manifestasse). Como era às vezes difícil
deixar algo de mais verdadeiro falar! Para que a sabedoria
do círculo se manifestasse, cada um deveria
ser o que estaria sendo dito, falar do coração.
E como é difícil deixar-se falar. Para
mim, especialmente, que me revolvia em minha própria
limitação. A ciência é
o ópio do povo.
(Dizem que o maior orador
Grego era gago. Ia para a beira-mar e enchia a boca
de pedrinhas para aprender a falar. E se tornou o
maior orador. O ego desaparece no humilde trabalho
paciente do silêncio? Até para que se
possa falar. Ainda não. Já!).
E os intervalos? As pessoas
vinham e conversavam com Coen Sensei entre uma tenda
e outra, entre um círculo e outro. Muita gente
queria foto, autógrafo etc. Vendemos quase
50 Viva Zen!.
Também visitamos Viazen,
onde Moryama Roshi nos preparou um jantar e falou
da dedicação de Sensei no Japão,
de sua admirável determinação.
E Sensei nos levou a um tempo, uma semana solitária
com um pouco de recheio de pão, comida aos
poucos, estar só em um templo no Japão.
O monte Fuji.
Não, o círculo
não é redondo. E as interseccões
são múltiplas. Que devir possível
para tanto movimento?
Para tentar responder, convoco
Leonardo Boff, no acaso de uma tenda aberta dizendo
(relato algo impreciso no amálgama da memória
auditiva): a cada movimento social aqui representado
corresponde uma carência de um grupo social,
algo que nossas sociedades globais (governo, empresariado,
sociedade civil) não consegue suprir.
E pensamos, a partir da fala
de Leonardo: Quando nos lembraremos de incluir o Fórum
Econômico? O Estado? E agora lá vem Eve
Marko Sensei, em seu rakusu de trapos coloridos, nos
trazendo sua experiência, sua prática
com população de rua: estar dentro do
que mora na rua. Mudar de perspectiva sempre. Não
haver mais ele e eu. Compaixão no sentido Budista?
Apenas compaixão?
E ela nos diz também
de uma experiência em que o bom uso do econômico
seria uma solução naturalmente decorrente
dos conflitos e problemas que se apresentam. No caso,
moradores de rua. As necessidades originais das pessoas,
daquele grupo que se pretendia que se transformasse,
foram a base para a construção da comunidade
dirigida por Glassman Roshi, seu marido. O objetivo
do grupo, em determinado momento, seria criar o maior
círculo possível para incluir TODAS
as pessoas necessárias para resolver os problemas
que queriam enfrentar, os problemas que se apresentavam
a partir do testemunho originado da abertura que não-saber
possibilita. Três princípios regem sua
Ordem, a Zen-Peacemaker Order, de zen engajado:
Primeiramente, não-saber.
Não se sabe nada de antemão. As necessidades
surgindo no momento em que estão ali. E em
segundo lugar, lembrar-se de ouvir as necessidades:
Testemunho. E o terceiro, não me lembro bem,
preciso consultar o site de Glassman Roshi: seria
ação? Ação de quem se
ocupa com orelhas de girafa. Sim: Ação
benéfica. Aqui, Zazen é ATIVO.
No fórum, falou-se
muito de ação não-violenta mas
também de linguagem não-violenta. Que
o Buda ilumine a mente, a fala, o coração.
Que o Dharma ilumine a mente, a fala, o coração.
Que a Sangha ilumine a mente, a fala, o coração.
Assim se criam condições
para sabermos de um outro mundo possível. Sem
excluir o que é rico e poderoso. Mas trabalhando
pelo equilíbrio destes três pilares de
organização da ordem mundial. Pelo “empoderamento”
do terceiro setor.
Que palavra poderíamos
levar do fórum, que proposta?
Complete a frase: Cada passo
que dou em direção a...A humanidade
todinha caminha em direção a...
Vamos escolher bem as palavras
que usamos. Vamos passear. Vamos completar.
Post Scriptum:
(Em uma das caminhadas durante
o Hoon Seshin eu chorava como chorei muito durante
janeiro. E meus olhos mostraram um prisma. E quando
a lágrima caiu, o prisma desapareceu. Chorei
muito, de amor e de raiva, chorei muito de rancor,
chorei um mundo cheio de passado, chorei cada fraqueza,
cada fracasso, chorei cada tentativa . Ao aprender
a respirar com todos, encontro o sofrimento de outros.
Olhar em torno. Ver além de mim. Falta muito,
o infinito, já aqui. Não vi a estrela
da manhã. Mas ela está).
E depois do fórum,
que também foi um retiro, agradeço:
Obrigada Coen Sensei, minha
mestra, amiga, sinto dizer isto porque é impreciso,
mas sim, amiga Sensei, obrigada. Espero contar com
sua colaboração hoje também!
Que os sons do mundo sejam ouvidos!
Obrigada Shozan Sensei, por
ter vindo com Coen Sensei ao Brasil, obrigada a todos
da Comunidade Zen-Budista, a TODOS sem exceção,
a todos que fazem parte deste papel. Obrigada por
este janeiro entrando em fevereiro. Que penetre a
vida toda. Saudades.
Martha (qual é mesmo
meu nome?)